quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Devaneios

Depois de se despedir dos colegas, John saiu da escola e pegou o ônibus de volta para casa. Ele havia ganhado uma importante bolsa de estudos, e isso fazia com que ele andasse oito quilômetros até a parada para poder pegar a condução até a escola, que era em outra cidade.
Todo dia era a mesma rotina. Acordava quatro horas da manha e se vestia, arrumava sua cama, esquentava o café e o leite. Ia até o banheiro, pegava as roupas sujas e levava até a máquina de lavar. Depois de tomar o café, escovava os dentes, lavava a louça e saia de casa, para pegar o ônibus às seis horas.
Na escola, sua mente vagava para vários lugares, deixando o corpo, conhecia novos mundos e voltava, apenas para olhar ao redor e perceber que o mundo continuava o mesmo.
Na hora do almoço, ele ficava sozinho no refeitório, comendo um lanche e bebericando seu refrigerante, esperando que o sinal tocasse, e ele voltasse as suas aulas. Os professores não entendiam como um garoto desligado, desleixado e que quase não falava ia tão bem às disciplinas que eles lecionavam. 
Depois do ultimo sinal acontecer e todos os alunos serem dispensados, ele voltava para dentro do ônibus, apagado, passando por todos, sem ser visto, ele não vivia, apenas existia.
Colocando seus fones de ouvido, ele se esquecia do mundo, e saia novamente de seu corpo, viajando para uma imensidão de aventuras, até que era despertado por algum colega do ônibus na hora de descer da parada e iniciar seu caminho para casa.
Dia após dia, nada mudava, nenhuma cena mudava naquele filme extremamente entediante em que era a vida dele. Nada mudava, até aquela noite.
Era uma quinta ou uma sexta, não fazia muita diferença na época, e John voltava para casa cansado, um pouco mais que o normal. Talvez fosse por que naquele dia ele se obrigara a prestar atenção nas aulas, renunciando aos seus maravilhosos devaneios.
Na esquina de casa, enquanto ele passava, não percebia que muita coisa tinha mudado, havia mais arvores na rua, prédios haviam virado casas e a noite havia se tornado dia. Mas no auge de sua rotina, ele nem mais pensava enquanto voltava para casa.
Ao chegar ao portão, colocou a mão nos bolsos e murmurou:
- Merda, esqueci minha chave.
Ele foi até o lado do portão e ficou frente a frente do muro, se preparando para pular. Com um pequeno impulso, ficou acima e depois caindo em direção a grama, batendo a cabeça levemente no chão.
O som dos latidos o assustou, e logo três cães o atacaram, de médio porte, não eram tão fortes mas em John, cada mordida doía. Em sua mente gritava para si mesmo “Cachorros? Eu não tenho cachorros!”
Ele olhou para dentro e finalmente percebeu que, o que era para ser o prédio em que morava, era uma velha casa, e o pânico tomou conta. Tentou se livrar dos cães, mas eles o imobilizaram fortemente e pareciam esperar alguma coisa.
Lentamente, um velho senhor saiu da porta dos fundos da casa e em sua mão, havia uma espingarda. Ele, com fraqueza, levantou-a e apontou-a para John:
- Você nunca mais vai invadir minha casa, seu moleque enxerido.
Ele gritou, gritou desesperadamente. Teria ficado nisso por um bom tempo, até que ouviu uma voz conhecida:
- O que aconteceu querido?
Era Alice, sua colega e vizinha.
Ele não entendeu nada, estava novamente na frente de seu apartamento deitado no asfalto, olhando para o céu. Levantando lentamente, ele olhou para colega, uma das poucas amigas que tinha, e respondeu, meio sem palavras:
- Eu tive um espasmo muscular enquanto pulava o muro.
Ela riu um pouco, e logo depois caiu na gargalhada:
- Você é mesmo incorrigível, devia praticar algum esporte.
Ele deu um sorriso meio amarelo e entrou no seu prédio, subindo dois lances de escada até o apartamento. Tudo estava normal novamente.
À noite, ele não conseguiu dormir, pensando em sua visão. Não era bem uma visão, por que ele tinha marcas de dentes em seus braços e sua cabeça doía levemente pela pancada na grama.
Ele tinha a estranha certeza que o lugar em que estava o prédio era o mesmo em que ele estivera antes, a casa. O mais estranho, era que o velho com a espingarda parecia que o conhecia.
A manha veio e ele estava ansioso para sair de casa. Não conseguiu dormir um minuto aquela noite e queria algo diferente para fazer. Sentia que no momento em que teve aquela visão, sua vida mudara completamente.
Depois de levantar, ele se vestiu e foi até a cozinha, pegou a carteira, que estava em cima da geladeira e a mochila, em cima da cadeira. Saiu de seu pequeno apartamento e desceu as escadas, foi até uma cafeteria perto de seu apartamento e decidiu comer bem.
Pediu um café grande e uma porção de pão de queijo, para comer no local. Sentou em uma mesa perto da janela e começou a olhar a paisagem, esperando seu pedido.
- O que faz aqui, não devia estar na escola? Perguntou uma voz conhecida.
Era Alice, sua vizinha e colega, que olhava para ele com uma expressão divertida.
- Um dia a mais, um dia a menos não faz diferença. Falou John rindo.
Ela puxou uma cadeira e sentou na frente dele.
- Você parece diferente... Comentou ela, meio sem jeito.
- Eu mudei o corte de cabelo.
- Viu? Estou falando disso, até ontem você não tinha senso de humor, acho que talvez bem personalidade.
John repentinamente se lembrou da visão, e no que ela mudara na sua vida. Ele ia tocar no assunto, quando soube de uma notícia arrasadora.
- Você soube? O dono do prédio vai ser processado.
Ele ergueu as sobrancelhas:
- O que houve?
- Parece que a alguns anos atrás, na época da construção, várias pessoas foram desalojadas e um pequeno bosque que tinha aqui perto foi derrubado.
Alice falava aquilo com um tom divertido, mas John estava desesperado por dentro, havia casa ali antes do prédio, então aquela visão dele poderia ser verdade. Ele pegou sua mochila e o copo de café e saiu correndo:
- Aonde você vai? Perguntou ela assustada.
- Acabei de me lembrar que tinha uma prova daqui a pouco, vou ter que pegar o ônibus e rezar para chegar antes que acabe a aula.
John odiava ter que mentir para sua amiga, mas ele precisava resolver aquilo o mais rápido possível. Precisava chegar a seu apartamento e...
Não havia mais apartamento, nem mais nada. Apenas escombros.
Ele caminhou mais um pouco e viu que alguns muros estavam intactos, no meio do terreno em que devia estar os prédios. As casas ainda estavam demolidas e as máquinas ainda estavam quentes.
Haviam duas escavadeiras, mas seus ocupantes não estavam ali. John olhou para seu relógio, que marcava 12h15min hora do almoço. Ele passou pelo meio delas e chegou na calçada. Viu um cão que olhava para o lugar que outrora fora sua casa, e viu o velho, o mesmo que tentara atirar nele, chorando loucamente na calçada.
De repente, não mais que de repente, sentiu um impacto fortíssimo, que começara na perna, mas se espalhara pelo corpo quando foi arremessado pela calçada por um carro. Ele estava de volta à realidade. E não estava bem.
Seu corpo todo doía, e ele sentia dificuldade de ficar acordado, ao fundo, ele ouvia as pessoas ao redor vindo, olhando, curiosas. Ouviu também gritando e percebeu que era Alice.
A chuva fina caia sobre seu rosto, desatordoando-o um pouco. Ele sentiu uma mão tocando em seu rosto e lá longe, uma voz falou:
- Vamos John, fique comigo, não durma, a ambulância já está vindo.
Depois, ouviu sirenes se aproximando. A ambulância? Não, policiais, falando com todos, perguntando sobre tudo, mas ninguém olhou para o corpo que jazia no chão.
Todo mundo se dispersou, indo para todas as direções. Um veículo grande e branco chegou, trazendo quatro pessoas nele. Eles pegaram-no e o jogaram na maca, sendo um pouco descuidados. Alice entrou junto no veiculo, e eles se dirigiram ao hospital.
A ambulância sacolejava um pouco, e as sirenes davam dor de cabeça a John, que tentava desesperadamente se manter acordado. Ele queria dormir, mas estava com um medo profundo de não acordar depois disso.
Ele estava de olhos abertos, quando viu um médico que estava perto dele falar:
- Vai ficar tudo bem, apenas descanse.
John, aliviado, fechou os olhos, e quando abriu, já não sentia nenhuma dor, ele nem estava mais na ambulância.
Era um carro grande talvez uma pick-up, na frente, havia um motorista chorando, ao seu lado uma garrafa de whisky quase vazia e vários papéis. Foi para o banco da frente, ao lado do motorista. Sentiu o cheiro de bebida em suas roupas e percebeu que pouco se preocupava com o transito em sua frente.
O motorista dobrou a rua, foi então que John viu. Ele viu a si próprio, andando em direção a seu próprio prédio, a passos lentos, como se estivesse em transe. Tentou puxar o braço dele, para que desviasse a direção dele, mas os braços do homem pareciam ser de pedra.
Na verdade, tudo parecia ser de pedra, ele não conseguia puxar o freio de mão, abrir as portas nem pegar nos papéis. Resumindo, não podia interferir. Foi quando viu um papel ao lado de cambio. Era de uma construtora, chamada Travel, tentou pega-lo, mas obviamente, não conseguiria nem fazer ele se mexer. Baixou a cabeça, e começou a ler o que estava escrito. Viu que era uma carta de demissão. Não dizia os motivos, mas citava indiscrição, corrupção e complô. John não sabia muito bem o que aquele papel queria dizer, mas não teria tempo para descobrir.
 Ele ouviu o baque, olhou para trás e, viu o próprio corpo sendo jogado longe. Fechou os olhos e se concentrou. Estava voltando ao seu corpo.
Quando abriu de novo os olhos, viu que estava em um grande quarto de hospital, com várias camas e alguns pacientes. Sua perna estava engessada, e seu braço todo enfaixado, no resto de seu corpo, havia pequenas feridas, talvez do seu impacto no chão.
Ao seu lado, havia um velho senhor, que dormia. Mesmo em seu sono profundo, o seu rosto era de tensão e preocupação. Pensou em chamá-lo, mas depois desistiu, não seria bom acordar um homem que ele nem conhecia.
Com o tempo, virou para o lado e voltou a dormir, mas não teve um sonho, e sim uma visão.
Estava em um apartamento escuro. Um bom apartamento. Era todo mobiliado, home theater, televisão, um jogo de sofás muito confortável, seria confortável, se não estivesse com um ar de morte.
John começou a andar, foi até os quartos, onde uma linda mulher repousava, e no outro, um bebe ria do estranho que entrava no seu recinto. John foi até o berço, o bebe o olhava, na verdade, o via, e não parecia assustado.
Ele saiu dali, percorreu o banheiro, a outra sala, onde havia uma grande mesa de jantar, com doze cadeiras e um lustre enorme acima. Ele bem olhou direito o cômodo, e foi até a cozinha, que era o único cômodo da casa em que a luz estava ligada.
Nele, havia um homem, na verdade, o mesmo homem que havia atropelado John, e ele estava com meia garrafa de uísque e um baseado no meio dos dedos. Estava com uma expressão vazia, provavelmente chapado com a maconha.
Foi quando dois homens de terno entraram na cozinha, esses usavam óculos escuros, que escondiam seus olhos. Sem falar nada, foram até a frente do homem, que parecia não enxergar nada.
Um deles ergueu a arma, e apontou direto para cabeça do drogado, e sem hesitar, atirou. Depois de se certificar que o homem estava morto, saíram daquele cômodo.  John os seguiu de perto, e quando eles chegaram à porta, um homem de terno falou para o outro.
- Há alguém aqui.
- Você sentiu também?
John sentiu um frio na espinha. Eles sabiam que ele estava ali.
- É um daqueles? Falou um, dando ênfase na palavra “Daqueles”
- Provavelmente, mas não é tão forte quanto os outros.
“Outros? Há outros?” se perguntou John, “E como assim eu não sou tão forte”
- Acorde!
Ele olhou para os lados, não eram aqueles homens que estavam falando.
- Acorde, vamos, acorde!
A voz não vinha de nenhum deles, mas sim do outro lado. John estava voltando.
Ele abriu os olhos e estava no quarto do hospital. O velho homem estava olhando fixamente para ele:
- Ainda bem que você acordou, os médicos estão vindo.
- Como você sabe...
- Shii... Falou ele, enquanto o médico entrava pela porta:
- Oi John, meu nome é Leonardo, e vou ser seu médico por enquanto.
- Por enquanto?
- Sim, seu estado grave está passando, então será transferido para um hospital publico.
O silencio imperou. John sabia o porquê daquilo, ele não tinha dinheiro, nem família, e nem muitos amigos que pudessem ajudar.
- Não. Falou o velho da cama ao lado.
- Não o que, senhor Klein? Falou o médico.
- Ele vai ficar o tempo que precisar nesse hospital, por minha conta.
Leonardo assentiu com a cabeça e fez umas anotações em um formulário, depois se despediu e saiu.
- Muito obrigado. Murmurou John
- De nada.
- Não que eu esteja reclamando, mas por que você fez isso por mim?
- Nós temos muito que conversar, sobre você, e o que pode fazer.
O silencio imperou por alguns segundos, John estava se perguntando como o velho sabia o que tinha acontecido com ele e o que ele conseguia enxergar.
- O que é que você sabe sobre mim?
O velho, com dificuldade, se ajeitou na cama, até ficar sentado, respirou fundo e começou a falar:
- Filho, não é apenas sobre você, é sobre todos, sobre o mundo em geral.
- Como assim?
- Sabe, o mundo em que vivemos não é o único, há outros mundos, com outras pessoas, que não conseguiram atravessar a linha, no outro mundo, o bem e o mal são como entidades, eles trabalham separados, com seus seguidores e inimigos.
John olhava fixamente para o velho, era uma história difícil de acreditar, mas John não duvidava, era como se ele sempre soubesse.
- Esses dois mundos coexistem, bem aqui, na nossa realidade. Pessoas que estão às portas da morte, cães e gatos, e pessoas preparadas espiritualmente podem ver esse outro mundo que nos cerca.
- Mas o que isso tem a ver com o que está acontecendo comigo?
- Calma meu jovem, para você entender seu dom, você precisa saber o que há por trás dele.
- Como assim?
- Calma, me deixa continuar de onde eu estava.  Há pessoas, que ignoram o que vêem, e procuram esquecer essa ligação, e aos poucos, não conseguem ver mais, e há pessoas que, como eu, que quando começam a ver, nunca param.
Ele fez uma pausa, pegou um copo de água que estava ao lado de sua cama, e depois, continuou:
- Há espíritos, que podem ser influenciados para fazer o que certas pessoas desejam, como ver o futuro, mostrar o passado, e o principal, influenciar as outras pessoas.
- Influenciar outras pessoas?
- Sim, não é grande coisa, o espírito não tem poder para tanto, mas ele pode, aos poucos, sugar suas emoções e sua vontade de viver, o deixando, como posso dizer, vazio.
 Agora John estava começando a entender:
- Eu sou este tipo de pessoa?
O velho olhou para ele:
- Não, você é o tipo de pessoa que eles estão tentando parar.
John olhou para o homem, meio desnorteado. Por que eles estariam tentando pará-lo?
- Você tem um poder muito raro filho, você possui uma coisa chamada cognição, a habilidade de poder ver o que não está ao alcance das pessoas normais.
- Como você sabe de tudo isso?
- Para nós, que podemos ver os dois lados, fica fácil descobrir quem nasce com esse dom, há sinais claros disso. Você jovem, é ainda mais especial, pois alem de ver o presente, o futuro e o passado também estão ao seu alcance.
- Mas como posso usar isso ao meu favor?
- Isso meu jovem, você terá que descobrir. Agora, deixe-me dormir um pouco, nesta idade eu não posso ficar me exaltando.
O homem virou para o lado e dormiu, deixando John sozinho com seus pensamentos. O que faria a partir de agora? O que o futuro reservava para ele? Com essas perguntas ele adormeceu.
E quando adormeceu, sonhou. E quando sonhou, ele viu.
Mas o que ele viu foi diferente de tudo, é como se ele se transportasse repetidamente, vendo diferentes cenas, tendo que se concentrar para não se perder. Um médico daquele hospital recebendo um envelope de dois homens engravatados... Três carros negros parando em frente a uma casa muito bonita e luxuosa... Uma garota ajoelhada pedindo clemência enquanto dois policiais riam de sua cara... Em uma cama de hospital, ele mesmo levava tiros à queima roupa.
Aquilo tudo foi muito estranho e alucinado, mas no final, John sabia o que tinha que fazer.
* * *
Eram oito horas da manha quando senhor Klein acordou, havia poucas horas que havia falado com seu amigo, mas no seu coração, sabia que alguma coisa havia mudado. Ao olhar para o lado, viu que a cama dele estava vazia, exceto por um bilhete:
“Você me ajudou a encontrara um caminho, e agora está na hora de segui-lo.
Muito Obrigado.”
Ele sorriu e, finalmente, aceitou o destino que estava tanto evitando, apenas esperando aquele momento. Agora, ele poderia morrer em paz.

domingo, 18 de outubro de 2009

Quebra-Cabeças

Ainda me lembro quando dividia o apartamento com Lucas, meu melhor amigo e colega de faculdade. Também me lembro quando começou sua péssima obsessão por desmascarar falsários que se diziam magos.
Não me entenda mal, acho que é muito bom ter alguém que mostre que nem tudo que se vê por ai é magia de verdade, mas Lucas era muito inteligente e podia descobrir hobbys bem melhores do que este.
Era um dia de verão quando estávamos passando pela praça, na frente do mercado público, e vimos um pequeno grupo de pessoas ao redor de um homem:
- Venham, venham, hoje vou lhes mostrar uma coisa inacreditável, a verdadeira magia!
Essas palavras atiçaram a curiosidade de meu amigo, que deixou de lado imediatamente as compras de livros que pretendia fazer para ver aquele show.
Ele entrou na multidão e eu, meio contrariado, fui junto. No meio dela havia um homem com aspecto de vendedor, tentando a todo custo nos convencer de que o que ele fazia era verdade, não apenas um truque.
Na frente dele, havia uma mesa, e em cima dela, um pote de sorvete limpo e vazio, sem tampa. Ele ergueu o pote com as mãos e disse:
- Todos que quiserem que eu lhes mostre meu poder, por favor, coloquem uma moeda no pote.
Um a um, todos foram pegando o pote e colocando uns trocados, inclusive Lucas, que parecia estar muito excitado com aquilo tudo.
- Hey Lucas, vamos daqui a pouco as lojas fecham!
- Não interrompa Filipe, eu quero ver o truque.
Naquela época, eu me assustei a ver aquela expressão que hoje estou tão acostumado, a frieza em seus olhos, a face determinada e séria, muito diferente do que eu costumava ver no dia a dia.
O Mago pegou uma fita adesiva e selou o pote, com todas as moedas dentro, e falou:
- Vocês estão dispostos a dar esse dinheiro se eu realizar o meu poderoso feitiço?
Ouvi uns murmúrios, a maioria, descrente, estava concordando. Ele, percebendo a resposta, tirou um grande anel cinza do bolso e colocou no dedo médio.
Pousou a mão no pote, e dentro dele, dava para ouvir o barulho das moedas se movendo. O homem levantou a mão a alguns centímetros do pote e começou a movê-la para o lado, e assustadoramente, o pote começou a se mover junto.
- Vejam o maravilhoso poder que eu possuo, e aplaudam!
E todos aplaudiram Lucas, que olhava fixamente para o pote. Quando a multidão começou a sair que Lucas deixou o seu transe, e começou a se dirigir para longe dali:
- O que achou do truque Lucas? Perguntei eu.
- Ei, era um anel bem grande não é mesmo? Falou ele, com o pensamento longe. E esse foi o único comentário sobre o truque que consegui dele naquele dia.
A noite, não consegui dormir, e percebi que meu amigo também não. Ele dormia no quarto ao lado, e ficou a noite inteira jogando sua maldita bolinha de tênis na parede. Era um passatempo bem comum seu quando estava deitado e sem conseguir dormir.
No outro dia, ele me acordou cedo, batendo a panela com uma colher insistentemente na porta do meu quarto.
Eu, muito mal humorado, me vesti lentamente e abri a porta do quarto, mostrando um Lucas alegre e com a expressão excitada.
- O que houve?
- Resolvi. Disse ele apenas, antes de pegar seu casaco e sair pela porta, comigo seguindo atrás.
Chegando lá na praça, o mesmo homem estava realizando o mesmo truque, para pessoas diferentes.
Ele entrou no meio da multidão bem na hora que o homem colocava a mão no pote de sorvete lacrado e fechava os olhos, fingindo se concentrar.
- Que tal tentar o truque sem o anel?
O homem olhou para ele, meio aturdido e respondeu sem muita convicção.
- Você sabe, todos os magos precisam de artefatos para concentrar o seu poder...
Lucas riu, e falou:
- Que tal tentar com o meu?
Ele jogou um anel para o homem, que instintivamente o pegou. A grande surpresa é que, quando ele foi largar, o anel ficou preso no que estava em seu dedo.
- Acho que você gosta de brincar com imas. Falou ele, rindo.
Depois, pegou o anel da mão do homem, que havia paralisado de medo. Lucas botou o anel em seu próprio dedo e tirou a fita do pote de sorvete. Colocando a mão em cima do pote, a tampa se moveu e algumas moedas acabaram grudadas no anel.
- É apenas um imã. Falou Lucas com convicção. Muito mais forte que os normais, mas apenas um imã.
Então se virou para o “mago” e falou:
- Teria sido muito melhor para você se tivesse dito apenas que era um truque.
Saindo da multidão ele se virou para mim e falou:
- Acho que gostei disso, talvez continue.
Nós estávamos dirigindo para uma livraria ali perto, quando uma linda mulher nos parou. Seus olhos azuis eram penetrantes, em contraste, com o cabelo vermelho vivo. Ela olhou de cima a baixo para Lucas e então sorriu:
- Estou montando um pequeno grupo, e nosso primeiro trabalho juntos era investigar esse homem. Falou ela.
- Desculpe chegar à frente.
- Não foi nada. Falou ela sorrindo. Depois, tirou um cartão da bolsa e entregou a ele:
- Se quiser fazer isso de novo, me ligue. Falou ela.
Depois dela se afastar na multidão e nós continuarmos nosso caminho, Lucas murmurou meio baixo, só para ele:
- Definitivamente, vou continuar nesse serviço.
E assim voltamos para casa, nos preparando pro próximo dia que estava por vir, e para meu amigo talvez, um novo quebra cabeça.

sábado, 17 de outubro de 2009

1969

                                                  
“Sinto o gosto de sangue em minha boca, tento cuspir, mas algo impede. Eu estou amordaçado, e uma venda cobre toda minha visão. Tento me mexer, mas meus braços e pernas estão amarrados em uma cadeira de madeira velha, mas muito resistente”.
Era um aposento escuro, não muito maior que um apartamento, mas tão escuro quanto os calabouços de um castelo. No meio dela, dois jovens estavam amarrados a uma cadeira, o sangue escorria de seus rostos e um deles já estava inconsciente.
O outro chorava e gritava, pedindo que alguém o ajude, mas não havia ninguém para ouvir.
Depois de um tempo, um homem alto e corpulento apareceu. Vestia uma farda do exercito, usava uma barba rala e em seu capacete estava uma bandeira do Brasil. Ele olhou com desprezo para o prisioneiro, e calmamente falou. 
- Me diga por que você estava com esse livro, por favor. Sua voz era fria, mas passava a mensagem.
- Eu não sei como foram parar ai! Gritou o jovem.
O Policial deu um poderoso soco na cara do estudante, e sua cadeira caiu para o lado. Depois, ele levantou a cadeira e falou:
- Trate com respeito uma autoridade, pois você não está com sua turma, onde vocês fumam baseado o dia todo e falam merda.
- Sim senhor.
Ele deu outro soco na cara do garoto, desta vez mais forte, fazendo o nariz dele sangrar, e o impacto no chão ser muito maior, ferindo sua cabeça. Depois disso, ele ergueu a cadeira novamente e acordou o garoto, que estava semi-consciente.
- Sim senhor, Capitão Gonzalez, repita comigo agora.
O estudante, cheio de medo, repetiu pausadamente.
- Sim senhor Capitão Gonzalez.
- Muito bem.
Gonzalez andou um pouco, de um lado para o outro da sala, olhou para o garoto que estava desmaiado e, voltou a sua vítima:
- Agora, você pode me dizer o que estes livros estavam fazendo em sua mochila e quem deu isso para você?
- Eu já disse que não sei como foram parar ai!
Um soco poderoso fez o estudante cair, e um chute em seu peito o fez perder o ar. Depois disso, o capitão colocou seu pé encima do peito dele:
- Cada vez que você mentir levará um chute igual aquele. Agora, me conte, onde você arranjou aqueles livros.
O menino, ofegante, tentou repetir mais uma vez, com o resto de suas forças:
- Eu... Não sei... Como os livros... Foram... Parar... Ali. 
O Capitão, irritado, deu chutes repetidas vezes no peito do garoto, que perdeu todo o ar e fraturou uma costela. O homem pegou um balde de água e tocou no garoto, fazendo-o acordar.
Depois, ele tirou uma faca longa, muito bem afiada, e pousou a em cima das mãos do estudante.  Levantou-a, acima de sua cabeça e a baixou com um movimento rápido. Ele começou a gritar de dor, mas logo parou, a dor em seu pulmão era, naquele momento, muito pior que o dedo que fora separado de sua mão.
-Agora, você pode me responder, quem lhe deu esses livros? Gritou Capitão Gonzalez
A voz do garoto era só um sussurro, mas o capitão sabia muito bem o que ele estava tentado dizer.
Suspirando, ele foi até uma mesa, um pouco afastada das cadeiras e pegou um revolver. Calmamente, colocou uma bala na arma e voltou até onde estava. Depois disso, apontou a arma para o garoto.
“Ouço vozes e um estouro ao fundo, talvez Jonas não tenha conseguido. Estou imerso aqui, em meus pensamentos, com medo da hora em que chegar minha vez. Não sei se vou resistir”.
Ele pegou o corpo de Jonas e tirou da cadeira, levou-o até uma parte afastada do porão e o deixou ali, aquele coitado não merecia um enterro descente.
Depois disso, foi até o outro estudante, que estava desacordado, e retirou a venda. Então, foi até a pia, colocou um pouco de água em um velho copo e logo depois, jogou na cara do jovem. Ele foi acordando lentamente, seus olhos pesavam e exibiam uma expressão de cansaço.
- Meu nome é Capitão Gonzalez, e o senhor foi detido por porte de material proibido, a partir de agora você deverá responder todas as minhas perguntas. Entendeu?
Ele olhou bem para a cara do capitão, e respondeu:
- Sim senhor, Capitão Gonzalez.
- Muito bem então, agora, vamos começar. Você e seu amigo foram encontrados com material suspeito, quem lhes deu esses livros.
- Eu não sei senhor, eu não estava junto na hora.
O homem tirou seu casaco, se preparou e deu um poderoso murro na cara do estudante, que caiu no chão imediatamente.
“A dor que senti agora foi muito intensa, tenho certeza que quebrei o nariz e o impacto ao cair no chão me fez quase perder a consciência. Tenho medo do que pode acontecer a partir de agora”.
- Não minta para mim garoto, o outro tentou, e não ficou muito bem.
- Eu não menti senhor. Falou calmamente.
O Capitão levantou a cadeira, e olhou diretamente para o rosto do estudante:
- Qual o seu nome garoto?
- Felipe, senhor.
- Muito bem Felipe, você parece mais esperto que o outro, então me diga, como conseguiram os livros e com quem.
- Não sei onde Jonas conseguiu, mas ele queria levar para outra pessoa.
Ele tirou uma faca do bolso, segurou-a com as duas mãos, e cravou diretamente na coxa direita de Felipe, que gritou imediatamente. Começou a mover a faca de cima para baixo, de um lado para o outro, rasgando a carne, e ensopando a calça com sangue.
- Talvez isso faça você se lembrar de alguns nomes.
“A dor e muito forte, estou me segurando para não gritar imediatamente, não consigo pensar direito”.
Gonzalez sabia em que lugar podia acertar com a faca sem fazer a pessoa morrer, apenas para fazê-la falar. E no final, quase todos falavam. Ele ergueu sua faca novamente, e cravou-a na altura da barriga, um pouco ao lado do estomago.
Mais uma vez, Felipe gritou. Ele chorava de dor, rezando desesperadamente para que ela passasse. Capitão Gonzalez olhava para tudo aquilo com um ar cruel, ele controlava os interrogatórios por que era o melhor, e talvez sentisse prazer em matar.
“Quero morrer, esta dor está insuportável, espero que ele me mate logo”.
- Lembrou se de algo?
- Me... Mate... Sussurrava ele
- Não se preocupe, eu vou te matar, a diferença via ser o tempo que vai levar.
“Talvez seja hora de desistir, talvez ele me de uma morte rápida se eu falar”.
- Tudo... Bem...
- Você vai falar?
- Sim... Chegue mais perto...
O Capitão quase encostou seu ouvido na boca de Felipe, que sussurrou tudo o que sabia. Ele não era tão forte quanto Jonas, e se arrependia de sua escolha a cada nova palavra que dizia.
Gonzáles saiu de perto e foi de novo até a mesa, retirou seu revolver do cinto e colocou mais uma bala. Depois, voltou até onde Felipe estava e deu apenas um tiro. Direto na cabeça.
“Queria pedir desculpas a todos meus amigos, pois não fui tão forte nem tão corajoso quanto Jonas, e agora, nas portas da morte, me arrependo do que fiz, mas para mim, a escuridão parece reconfortante”.

Desolação

Albert acordou em um lugar escuro, sua cabeça doía e ele mal conseguia mexer suas pernas. Seu corpo estava pesado e seus braços duros. Não sabia por quanto tempo estava desacordado.
Com extrema força de vontade, ele saiu da cama, e seus pés tocaram o chão azulejado, perdendo a força novamente. Não sabia o que estava acontecendo, nem o porquê de não haver ninguém naquele lugar.
Saiu do quarto e percebeu que estava em uma espécie de hospital, onde a sujeira imperava e vários pacientes haviam fugido, dando ao lugar um aspecto de desolação.
Nos corredores escuros outros se juntavam a ele. Nenhum deles quis falar, estavam presos em seus próprios pensamentos, próprias esperanças.
Todos juntos, foram até a porta, de cabeça baixa, sem vontade de levantar os olhos e mostrar o que estavam sentindo.
No momento em que empurraram aquela porta, e levantar suas cabeças, todas suas esperanças vieram a baixo, e pela primeira vez, mostraram o que realmente sentiam.
Muitos caíram no chão, sem forças para continuar. Outros começaram a chorar, temendo que não houvesse ninguém além deles. Seus corações pesavam, e uma angustia tomou conta de todos.
Pois aquele era um mundo de dor meu amigo, onde a paisagem estava refletindo o que se passava dentro de seus ocupantes. Um mundo onde a raiva tomava conta, e a bondade havia sido deixada de lado.
Albert, o mais velho dos homens ali, foi com passos lentos até a rua, olhou em volta, para a cidade destruída. Sua cara estava impassível, pensando em que escolha deveria tomar.
Depois de muito pensar, ele olhou para trás e viu aquelas pessoas, várias delas ainda não haviam se recomposto, e observavam aquela destruição com um olhar apavorado.
O velho pegou um pedaço de madeira no chão, voltou para dentro do hospital, e com o graveto deu um jeito de trancar a porta.
Eles não estavam preparados para enfrentar a realidade. Pelo menos, não ainda.

Combatendo Fogo com Fogo

O medo da morte o seduzia, e o prazer i a ira momentânea eram as únicas emoções que ele era capaz de sentir. Isso o fazia transar com mais mulheres, cometer atos perigosos. Não precisava de amigos, não conseguia ficar na rotina e não se arrependia nada do que fazia, pelo menos não até aquela noite.
David estava disputando rachas com seu carro, quando ultrapassou o sinal vermelho e um caminhão se chocou contra ele e despedaçou o carro inteiro, prensando-o contra um muro.
Ficou um mês em coma, e quando acordou, sentiu que alguma coisa estava diferente. Ainda não precisava de relações afetivas, mas não se sentia excitado com o medo da morte e não tinha mais vontade de transgredir a lei.
Agora, estava na frente do Doutor Roberto, um neurologista que acabara de se formar e inaugurar sua clínica. Junto com seu amigo Guilherme, psicólogo de um famoso hospital de São Paulo, descobriu o problema de David.
- Bem. Falando com cautela. Você não pareceu surpreso quando falei que você tinha um distúrbio.
- Não era novidade para mim, eu acabei descobrindo isso bem cedo em minha vida. Falou ele, se lembrando de dezoito anos antes, quando, ainda jovem, ouviu seu pai falando com o médico da família e depois, espancando ele até fazê-lo prometer não fazer mal a ninguém. Não eram boas lembranças.
O médico parou novamente, tentando adivinhar que pensamentos se passavam por trás daqueles olhos frios.
- O acidente com seu carro... Ele fez com que a sua cabeça batesse forte contra a direção. Apontou para a que cicatriz estava quase desaparecendo, mais ou menos nas têmporas. Ele causou danos no seu cérebro.
Ele havia ouvido falar de alguma coisa assim, um homem nos estados unidos voltou ao normal depois de dar um tiro em sua própria cabeça, lobotomizando o cérebro, não achava que alguma coisa assim tivesse acontecido com ele, mas talvez algo parecido.
Depois de sair da clinica, começou a andar pela cidade, pensando no que fazer, estava completamente sozinho, sem chão, nada o satisfazia, nada o fazia querer viver.
 Mas o mundo é um lugar cinzento, com as paredes manchadas de sangue, o sangue de inocentes. E David logo descobriu isso.
Ao passar por um beco, ele ouviu uns gritos de mulher. Entrou correndo pela escuridão e foi ver o que era. Não se importava realmente se ela estava bem ou mal, mas queria deixar de pensar em assuntos inúteis.
O que viu o fez quase sentir temor. Aquela linda mulher teve os braços arrancados, os dedos os pés cortados e havia uma faca enterrada em sua barriga, tinha tanto sangue no chão que David já estava molhando os pés. Mas não se importava. Estava interessado, queria descobrir quem havia feito aquilo com o corpo.
Primeiro, deu uma boa olhada nele, a moça estava estranhamente com a face em que morrera, mas seu rosto não apresentava terror, e sim felicidade, parecia feliz com alguma coisa que havia acontecido recentemente.
 Olhou para os lados, havia apenas uma saída, e ele sabia que ninguém passara por ele antes da mulher gritar. Do outro lado, o muro era alto demais, e, mesmo que ele soubesse pular muito bem muros, David já teria chegado antes que conseguisse subir.
Subitamente, ele olhou para cima, um pouco acima da escada de incêndio, que começava no segundo andar. Lembrou se do tempo que morou com seu tio, que compartilhava do seu mesmo mal.
- David, venha aqui garoto. Falou João
O garoto foi até o beco em que o tio estava, esperando que ele brigasse por ter batido no colega, que ameaçara contar a diretora que ele estava matando os pássaros da região.
Quando chegou perto, João apontou para cima.
- Aqui meu amigo, é o melhor jeito de escapar de algum lugar quando se comete m delito que não pode ser visto, haverá vezes em que não poderá pular o muro, por isso lembre-se: muitas pessoas olham primeiro de volta a rua, e quase nunca para lugar certo.
David olhou bem para aquela escada de incêndio, e nunca se esqueceu aquela dica de seu tio.
Ele agarrou a escada e a puxou para baixo, subindo vagarosamente. Olhando cada degrau, esperando encontrar qualquer coisa que o indicasse quem foi o assassino, mas havia apenas pequenas manchas de sangue.
‘ Está molhado, ele passou por aqui há pouco tempo, talvez um pouco antes de eu ter olhado para cima” Pensou ele.
Subiu até o telhado e pensou em que direção o assassino poderia ter ido. O telhado era inclinado, assim ele não poderia ter seguido em frente. Olhou para os telhados ao redor e pensou.
Havia um telhado plano a sua esquerda, por onde o assassino poderia ter escolhido passar. Decidiu ir por ali, ver o que mais poderia encontrar mais uma pista.
Tomou distancia e pulou. Ele pode chegar sem problemas no outro telhado e começou a olhar ao redor, até a rua.
Seu olhar parou até uma igreja que tinha a sua frente, que mesmo àquela hora da madrugada, estava com as portas abertas.
Voltou a sua casa para pensar no assunto, não poderia chegar à igreja àquela hora, provavelmente o assassino estava armado e não seria problema ele matar mais uma pessoa.
No outro dia, passou pelo mesmo beco ao mesmo horário, não havia ninguém, apenas um gato que ronronava mansamente. Decidiu esperar em um lugar mais estratégico, a igreja que vira na noite anterior. Entrou nela, sentou em um dos bancos da frente e fingiu rezar.
Uma mulher que estava a frente dele parecia impaciente, se movimentando o tempo todo. Ela era muito bonita e vestia roupas finas, o que fez David se perguntar o porquê dela agir assim.
Quando o padre chegou, ela foi correndo ao encontro dele, e os dois começaram a conversar. Não parecia uma conversa de um padre e uma crente, e sim de dois amantes que ficaram muito tempo sem se encontrar.
Ele não ouviu muito da conversa, pois estava longe, mas conseguiu perceber muito bem quando os dois saíram daquele recinto. Esperou um pouco e foi até a porta, não colocou a cabeça para fora para ver, mas tentou ouvir o que estava acontecendo.
Eliminando o barulho dos carros, os ruídos dos animais lá fora e das poucas pessoas que passeavam no fim da tarde, começou a se concentrar n que realmente interessava, aqueles dois pecadores que se distanciavam da igreja. Pode identificar os passos da mulher pelo barulho do salto alto, que ia se distanciando cada vez mais.
O grito estridente não tardou a vir, um grito feminino, desesperado, que ecoou pela rua, um grito que, infelizmente, ninguém parou para ouvir, a não ser David.
“Achei minha presa, agora está na hora de caçá-la”
Um jovem David foi recebido por seu tio depois de cinco dias na prisão por dirigir embriagado, ele habilmente convenceu os policiais que seu sobrinho era inocente, conseguindo que o jovem fosse liberado uma semana mais cedo.
Ao sair da prisão, João parou seu sobrinho na calçada e começou a falar:
- Você sabe muito bem que não estamos presos aos defeitos da existência dos sentimentos pelos outros, diferente daquelas pessoas que você acabou de ver. Cada um deles pode ser manipulado, é só saber onde. Se uma pessoa for feia, elogie-a, mostre que ela é linda, se for burra, mostre como ela ode ser inteligente. Torne-se o espelho perfeito para concertar o defeito de todos.
Ele sabia como poderia pegar aquele padre assassino, mas precisaria de mais uma pessoa. Quando o padre voltou, David esperou mais cinco minutos, então fez o sinal da cruz e saiu da igreja.
Foi até o orelhão mais próximo, retirou o cartão do bolso e colocou no telefone. Iria ligar para uma velha amiga, e tentar convencê-la a fazer um favor em nome dos velhos tempos.
- Alo? Atendeu uma voz feminina.
- Oi meu amor. Falou David
- David? Seu desgraçado! Você saiu daqui de casa há dois anos e nunca mais voltou! E agora, vem ligar, como se nada tivesse acontecido.
- É que só agora eu descobri uma coisa que mudou minha vida. Que eu te amo. Falou ele, simulando carinho na voz.
Ela ficou quieta, ele nunca havia dito uma palavra de carinho para ela quando estavam juntos, então, só podia ser verdade.
- Meu amor, você pode se encontrar mais uma vez comigo? Para podermos conversar um pouco, talvez nos acertarmos.
Ela tentou manter a voz de brava, mas estava terrivelmente abalada pelas palavras de seu antigo amor, e mesmo estando agora casada, decidiu se encontrar mais uma vez com ele:
- Tudo bem, em que lugar podemos nos encontrar?
- Há uma igreja aqui perto, no bairro em que morávamos, podemos nos encontrar lá daqui a alguns minutos.
Ela pensou um pouco e respondeu:
- Pode ser, eu chego ai em meia hora.
 Ele se despediu amorosamente dela e desligou o telefone. “Um já foi, agora só falta fazer minha nobre caça cair na isca.
Depois do telefonema, David voltou à igreja, para falar com o padre. Entrou na nave da igreja e logo achou o assassino, recolhendo as bíblias esquecidas nas cadeiras.
- Oi padre, eu preciso muito de sua ajuda! Falou David, quase chorando.
O padre olhou sério para ele, até que falou:
- O que houve meu filho.
- Minha mulher esta me traindo, eu tenho certeza!
- Como pode ter certeza, essa acusação é muito grave...
- Eu vi, com meus próprios olhos, quando voltava mais cedo do trabalho.
A expressão do padre por um segundo pareceu desejosa, antes de voltar a parecer amável como sempre.
- Você deseja que eu fale com ela? Talvez eu possa ajudar...
- Você poderia?
- Sim a chame e, por favor, saia, é bom que eu e ela conversemos a sós.
- Tudo bem.
David saiu dali, limpando as lágrimas, e foi até o seu apartamento, onde guardava uma arma de fogo escondida, se tivesse emergências.
Jennifer estava pegando o táxi. Mesmo que simulasse raiva, era quase impossível ficar com raiva de David, e ela sabia disso. Iria até a igreja falar com ele, acabar de vez com os mal entendidos e até recomeçar sua vida, nem que tivesse que se separar do marido.
Ela chegou naquela grande igreja antiga, pagou o táxi e entrou. Esperava encontrar seu amado, mas havia ali apenas um jovem padre, que acendia as velas do altar.
- Oi? Perguntou ela.
O padre se virou:
- Sim? Falou o padre sorrindo.
- Por acaso um homem de mais ou menos vinte anos passou por aqui? Ele disse que queria me encontrar.
O padre mudou de expressão:
- Sim ele está aqui perto, vou lhe mostrar o caminho minha querida.
O padre levou Jennifer até o beco, onde não desconfiou de nada, até que percebeu que David não estava lá.
Tentou fugir, mas tudo que conseguiu foi ter sido empurrada, enquanto o padre puxava uma longa adaga de sua manga. Primeiro, começou a cortar o rosto da garota, coisa que não costuma fazer com as outras, mas, naquela noite, queria algo especial.
Depois, com o pé, segurou a garota, enquanto retirava um machado de debaixo da lixeira. Não era possível que os policiais não tivessem olhado num lugar tão óbvio como aquele.
Tirou a calça que ela usava e rasgou sua blusa ferozmente. Ergueu o machadinho e se preparou para cortar a primeira perna, quando sentiu seu peito queimando, tudo estava ficando escuro, e já não conseguia pensar direito.
Colocou as mãos perto do coração e percebeu, havia levado um tiro. Talvez estivesse tão concentrado com aquela mulher que provavelmente não percebeu o estouro da arma.
 Jennifer foi falar com David, que segurava uma pistola, concentrado no corpo do padre.
- O que aconteceu aqui David? O que era aquilo? Perguntou ela, desesperada.
- Saia daqui agora, não preciso mais de você.
- O que? Por que está falando isso?
David olhou para ela, e teve uma explosão momentânea:
- Sai daqui sua puta, não ouviu o que disse?
Ela olhou para ele assustada, mesmo quando estavam juntos, nunca tinha visto ele assim, e duvidava muito que ele voltaria a ser como era. Pegou sua calça e sua blusa e saiu dali, pretendia chamar a polícia imediatamente.
João e David se se encontravam olhando para um corpo no chão. A mulher de João olhara os exames de David, e queria expulsa-lo de casa. Seu marido achava que seu sobrinho seria muito mais útil que ela, então a matou. Depois disso, abrira sua barriga e colocara um punhado de pedras dentro, fechando com uma linha de tricô.
-Quando um de nós decide matar, ele cria uma assinatura, e por isso ficaram famosas. Começou ele.
- Os outros matam em um momento de raiva, nós matamos por que nos faz sentir bem e por que nos faz sentir bem, e porque é necessário, então, faça isso ter sua cara. Faça que os outros saibam que foi você, mesmo que não saibam quem você é.”
Quando o padre acordou, estava amarrado a um poste, seus pés estavam enterrados na lenha e no carvão, e seu corpo havia sido banhado a gasolina.
- Por que você fez isso? Perguntou o padre para David, que estava na sua frente. Ele não parecia assustado, apenas queria saber o porquê daquilo.
- Você passou um pouco dos limites, não estava fazendo um bem a seus maridos matando as suas esposas infiéis.
- Como você descobriu isso?
David chegou bem perto daquele homem, que já não parecia tão santo, apenas extremamente frio e calculista.
- Por que somos iguais.
Então, deixou o isqueiro cair e foi embora. Mesmo estando em chamas, o padre não gritou nenhuma vez. David saiu dali com uma sensação parecida da qual sentia muito antes do acidente, e ficou feliz por isso. Havia achado um novo hobby.

Reality Show

Eduardo havia acabado de descobrir que ganhara a chance de participar de um reality show, desses em que deviam sobreviver em uma ilha por tempo suficiente, eliminar os outros e ganhar muito dinheiro. Ele foi avisado uma semana antes de começar, tempo suficiente apenas para pedir dispensa do emprego, se despedir de sua namorada e ir até o hotel, em que tinha que ficar pelo menos cinco dias, para se solar das outras pessoas.
“Eu tirei a sorte grande” Pensou. “Vou fazer todos virarem meus amigos e, na hora certa, descartarei um a um, preciso muito deste dinheiro, e vou levá-lo a qualquer custo”
Depois de cinco dias naquele hotel de luxo, em que Eduardo aproveitou cada momento, todos os participantes tiveram que ir ao navio, que os levaria a ilha. Dentro daquele navio que todos os participantes puderam se conhecer e conversar. “Preciso começar a fazer amizades, uma hora elas podem me ser úteis”
Andou um pouco pelo barco, falando relativamente pouco com as pessoas, analisando-as, descobrindo quais seriam as melhores dali para ajudá-lo em seus objetivos, e em um grupo de dez pessoas, apenas uma lhe pareceu boa o suficiente. Ana, uma jovem linda e meiga, mas que era muito mais inteligente do que aparentava. Eduardo descobrira isso na primeira vez que falara com ela, ainda no barco.
- Oi, posso me sentar aqui?
Ela olhou o por alguns minutos:
- Claro, e fique a vontade para analisar as outras pessoas daqui.
-Ele olhou para ela espantado, nunca ninguém havia percebido suas estratégias tão rápido.
- Do que você está falando?
A expressão dela mudara de meiga e gentil para séria e interessada.
- Você observou a todos no barco, falou razoavelmente pouco com todos e decidiu sentar logo aqui, isso quer dizer que eu sou uma das que você escolheu, mas não deseja manipular apenas uma pessoa, isso seria burrice, não adiantaria de nada, você precisa que pelo menos um pequeno grupo fique a disposição a você.
A expressão dele também mudara, de espantado para sério:
- Como você sabe disso?
Ela ergueu as sobrancelhas:
- Se lhe contasse, eu não seria mais tão útil para você não é?
Ele continuou inabalável:
- E o que você quer?
- Se um de nós vencermos doará 40 por cento do premio para o outro.
- Tudo bem, mas como sabe que um de nós não irá mentir no final e fugir com o dinheiro.
Ela o olhou sério, e Eduardo poderia jurar que ela estava ficando irritada, mesmo que seu rosto não transparecesse.
- Pro seu bem, é melhor que não faça isso, pois então não irá muito longe.
Depois disso voltou àquela mesma expressão de antes, meiga e gentil. Saiu e o chamou junto, e seus olhos rapidamente apontaram para outro ponto no barco. Ele sabia muito bem o que era, havia câmeras ali dentro, e eles já tinham sido descuidados demais no início da conversa.
Ela estava escorada nas grades de segurança do navio quando ele chegou e se sentou ali perto de onde estava escorada:
-Você acha que as gravações nos prejudicaram?
-Não. Respondeu ela. Aqui ninguém sai por voto popular, e sim pelo voto dos outros, e tenho certeza que nenhum deles pareceu prestar a atenção no que estávamos conversando.
Os dois ficaram em silencio, até que chegou um homem, pelo que Eduardo sabia seu apelido era Betão, formado em educação física e era de uma família rica, um daqueles que pagou para estar ali.
- Vamos dançar gata? Falou ele para Ana.
- Claro. Falou ela, saído dali e piscando para Eduardo.
Pensando bem na situação, ele era o único que não estava com a vida garantida de saísse do jogo sem vencer, pois toda sua família estava morta, sua namorada provavelmente terminaria com ele para ficar com outro cara e nunca teve dinheiro para cursar uma faculdade.
“Talvez seja por algum motivo que vim para cá”, ”Se eu sair daqui vou começar uma faculdade, talvez subir na vida pelos meios honestos’, foi quando viu Ana voltando para o lugar onde ele estava. ”Ou não” pensou.
- O cara é um líder nato, mas fácil de ser manipulado, talvez consigamos que ele fique do nosso lado.
- Sim. Falou Eduardo, sua mente de repente se voltara para ilha, que estava a poucos quilômetros a sua frente. Por que nunca ouvira falar dela?
- O que você sabe da ilha para qual estamos indo?
- Rumores, apenas rumores. Alguns dizem que foi dos militares, que estavam fazendo experimentos e decidiram que, depois de vários fracassos a liberaram para a empresa do programa. Outros dizem que teve uma guerra não noticiada aqui há poucos anos, e que o povo da ilha foi exterminado.
Agora ele estava com um estranho mau pressentimento.
À noite, o barco parou a quase quinhentos metros da ilha, e uma voz feminina começou a sair dos alto-falantes.
- Competidores, a partir daqui a competição começou, vocês devem nadar até a praia, onde receberão novas ordens.
Todas as pessoas pularam no mar, deixando Eduardo para trás, que foi seguido por Ana, não seria bom se eles se separassem agora.
A maioria estava nadando concentrada em sua velocidade e força, mas quem olhasse para praia veria uma série de vultos negros pulando no mar, na direção contrária. “Aquilo não pode ser bom” Pensou ele. Os competidores mais a frente então começaram a ser submergidos e não voltaram mais. Os demais estavam tão concentrados que não perceberam que estavam nadando em sangue, sendo puxados para o fundo segundos depois.
Eduardo parou imediatamente, segurando Ana, que já estava indo, sem olhar o que estava acontecendo.
- Olhe, você vê alguém na frente?
- O que aconteceu?
- Não sei, mas vou voltar para o barco, antes que aconteça o mesmo comigo.
E ele voltou para o lado do barco, esperando que tivesse um radio para pedir ajuda. Ao chegar à escada, uma mão branca e gelada agarrou-o pelo braço e o suspendeu no ar. O que Eduardo viu ele não esquecerá jamais. Um grande homem com cabelos negros e pele extremamente branca estava a bordo do barco, tinha uma força extraordinária, seus olhos eram absurdamente vermelhos e seus caninos muito maiores que o normal.
Ele falou, com uma voz gélida, que fez Eduardo sentir medo, ainda mais medo do que quando viu a água manchada de sangue.
- Você foi esperto o suficiente para não continuar adentrando em nosso território. Não permitimos estranhos aqui, e os que tentarem, serão exterminados.
Eduardo tentou falar, mas sua voz não quase não saiu:
- Você vai me matar também?
O grande homem o trouxe para perto, a poucos centímetros do seu rosto.
- Não matamos se não for necessário, e tenho certeza que vai se lembrar disso.
E sorriu levemente:
- E fará os outros de sua raça lembrarem também.
Depois disso, lançou-o ao mar, com tanta força que ele foi cair a vários metros do mar.
Depois disso, gritou. Mas não pareceu um grito, a voz veio a Eduardo tão suave quanto um sussurro.
- Você nos deve sua vida, e um dia, voltaremos para cobrar.
Desaparecendo com o barco na névoa, deixou ele pensando em como faria para voltar. Depois, olhou para Ana, que também havia sido deixada viva por aqueles vultos, mas estava desacordada. “Acho que terei que voltar a nada, mas como farei com ela, a deixo aqui?”. Nadando, chegou até ela e a botou nas costas, firmando como podia. “Vou levá-la junto, pode me ser útil algum dia’. Depois olhou para o horizonte e suspirou. ‘ Será uma longa viagem de volta”

Quando a chuva começa

Quando eu estudava e ouvia o meu professor de física falando que, segundo as leis da física, se uma criatura de um planeta A fosse com uma nave circular para um planeta B, em outra dimensão, e seu planeta tivesse três dimensões, e o planeta B tivesse duas dimensões, as criaturas do planeta B veriam um ponto ou uma reta, mas nunca um círculo.
E eu começava a pensar, e se uma criatura de um planeta com quatro dimensões viesse aqui para terra, o que nós veríamos?  A resposta é: Nós não veríamos nada.
Acho que tudo começou há um dia ou dois, quando ouvimos um barulho estrondoso, tão grande que tivemos que tapar nossos ouvidos para não cairmos inconscientes.  Esse barulho foi ouvido em quase todas as partes do mundo, e as TVs não paravam de divulgar o que havia acontecido.
Mas aquilo foi só o início, depois veio a chuva. Uma chuva tão forte que todos tiveram que se abrigar, pois os que ficavam fora de algum abrigo eram derrubados no chão por causa do peso da chuva e os mais fracos acabavam desmaiando.
Naquele dia eu estava trabalhando em um escritório, vendo as papeladas que precisava assinar e fiquei em pânico, os desacordados por causa da chuva e do som, muitas deles já haviam sido atropelados pelos carros que corriam para voltar para suas casas, talvez ver suas mulheres ou salvar seus filhos.
 Naquele caso eu não precisava me preocupar, meus parentes estavam todos mortos e eu, com vinte e dois anos, ainda não pensava em me casar. Mas pensava em voltar para casa, pois eu não resistiria muitos dias em um escritório, onde não havia muito mais que uma jarra de café na sala de espera.
Estabeleci meu plano de ação rapidamente, eu desceria até a garagem, no subsolo, e faria ligação direta no melhor carro que tivesse ali, pois o meu não agüentaria aquela poderosa chuva que estava lá fora.
Quando cheguei lá embaixo, peguei o melhor carro dali, que eu só poderia comprar com anos de trabalho duro. Era de um dos meus chefes, que provavelmente estava escondido em baixo da escrivaninha de sua sala nos últimos andares do prédio.
Eu achava que nada poderia ficar pior que aquela maldita chuva, mas o terror mal havia começado. Carros que ainda estavam estacionados na rua começaram a ser jogados para cima, ou então eram arremessados a quilômetros de distancia de onde estavam. As pessoas que ficaram embaixo das marquises começaram a correr, e as que desmaiavam por causa do impacto da chuva estavam a estranhamente começando a se dissolver, primeiro a carne, depois os ossos e os órgãos, até não sobrar nada. E a partir daquele momento, os gritos de dor se tornaram cada vez mais freqüentes.
Naquele momento, acho que poucas pessoas se perguntavam de onde tinha vindo tudo isso, muitas apenas pensavam em sobreviver aquele massacre que estava acontecendo.
Eu decidi esperar um pouco naquele confortável carro, percebi que havia uma pequena TV na frente do passageiro e decidi ligá-la, para ver se alguma emissora ainda estava no ar.
Surpreendentemente todas estavam no ar, as jornalísticas estavam passando todo que estava acontecendo do lado de fora de sua janela, pois ninguém se arriscava a sair, principalmente depois de saber que algo estava matando a todos na rua. Os canais religiosos gritavam, dizendo que aquilo era o apocalipse e que todos nós devíamos nos ajoelhar e rezar para sermos salvos. Eu, como ateu, achava aquilo tudo um bando de besteira, e que se estávamos sofrendo tanto era por que merecíamos.
Reclinei a poltrona até ficar em uma posição confortável e mudei de canal para um desses de entretenimento, que só passava aqueles enlatados americanos.
Eu esperava sobreviver e chegar em casa, mas não era impulsivo, sabia que se eu saísse naquele momento eu morreria, como tantos outros, por isso eu tinha que esperar.
Não sei quanto tempo eu fiquei ali, acho que algumas horas, mas no final ouvi um homem gritando, correndo na direção do carro.
Abri a janela e olhei. Ele estava de terno e gravata, mas o terno estava rasgado e em suas mãos havia partes em que já aparecia a carne.
Eu podia ser manipulador, interesseiro, mas não era cruel, por isso, abri a porta do carro, pretendendo o levar para um hospital que ainda funcionasse. Ele teria sobrevivido, mas a centímetros de distancia de entrar, alguma coisa o puxou para fora o levando da garagem para rua.
Fechei a porta do carro rapidamente e acelerei, precisava sai dali. Aquelas coisas tinham começado a adentrar os prédios, e se elas tinham olhos, tinham me visto. Vi-me correndo com o carro o máximo que podia, tentando desviar dos corpos das ruas e daquilo que empurrava os carros para longe e dissolvia as pessoas. Com o tempo, você mesmo não vendo aquelas coisas, podia sentir sua presença, e talvez, com um pouco de concentração, ouvi-los.
Eu olhava para os lados de tempos em tempos, para ver se havia algum sobrevivente que precisava ser salvo, mas tudo que via era pilhas de corpos se dissolvendo e prédios sendo destruídos.
Foi quando a encontrei. Estava desmaiada perto dos escombros de um prédio que desmoronara há pouco tempo, não estava se dissolvendo como os outros e provavelmente ainda estava respirando.
Então sai do carro para pegar ela antes que alguma coisa me atingisse, estava com muito medo, pois não sabia o que de novo poderia surgir daquilo que estava perseguindo todos nós. Em menos de quatro horas nossa cidade, e mais várias outras cidades do mundo já haviam virado cidades pós-apocalípticas, que tanto vemos nos filmes de terror e ficção.
Eu peguei-a no colo e botei dentro do carro, e quando fechei a porta do lado dela, senti pela primeira vez o gás. Ele era quase incolor, mas quando chegava perto, nós sentíamos muito bem. Era espesso, e fazia nossas energias irem embora, junto com o impacto daquela chuva desgraçada fez-me quase desmaiar. Lutei muito para chegar à frente do carro e fechar a porta e os vidros, mas já não adiantava mais. Ele se impregnou no carro o suficiente para nos fazer entorpecer.
Acelerei o máximo que podia, esperando chegar a qualquer lugar que tenha alguém, mas minha mente já estava cansada demais, e só consegui pensar no hospital, onde provavelmente teria gente.
Quando cheguei à rua que dava para o hospital, vi que não havia ninguém e estava tudo trancado dentro, tomado pelo desespero e pelo cansaço, minhas mãos largaram o volante e meu cérebro se desligou.
Depois veio a dor.
Não sei o que aconteceu e quanto tempo dormi, mas quando acordei estava em uma maca, dentro do hospital em que tentava chegar. Estava com muitos ferimentos, mas a maioria deles estava agora com ataduras e ela estava do meu lado, e era linda.
Agora, ela dorme tranquilamente em uma poltrona, enquanto eu visto outras roupas e dou uma olhada no hospital. Sinto que as criaturas estão chegando perto, e eu terei que tirar agente daqui rápido.
Não acredito, mas se Deus existir, que Ele me ajude.