sábado, 17 de outubro de 2009

1969

                                                  
“Sinto o gosto de sangue em minha boca, tento cuspir, mas algo impede. Eu estou amordaçado, e uma venda cobre toda minha visão. Tento me mexer, mas meus braços e pernas estão amarrados em uma cadeira de madeira velha, mas muito resistente”.
Era um aposento escuro, não muito maior que um apartamento, mas tão escuro quanto os calabouços de um castelo. No meio dela, dois jovens estavam amarrados a uma cadeira, o sangue escorria de seus rostos e um deles já estava inconsciente.
O outro chorava e gritava, pedindo que alguém o ajude, mas não havia ninguém para ouvir.
Depois de um tempo, um homem alto e corpulento apareceu. Vestia uma farda do exercito, usava uma barba rala e em seu capacete estava uma bandeira do Brasil. Ele olhou com desprezo para o prisioneiro, e calmamente falou. 
- Me diga por que você estava com esse livro, por favor. Sua voz era fria, mas passava a mensagem.
- Eu não sei como foram parar ai! Gritou o jovem.
O Policial deu um poderoso soco na cara do estudante, e sua cadeira caiu para o lado. Depois, ele levantou a cadeira e falou:
- Trate com respeito uma autoridade, pois você não está com sua turma, onde vocês fumam baseado o dia todo e falam merda.
- Sim senhor.
Ele deu outro soco na cara do garoto, desta vez mais forte, fazendo o nariz dele sangrar, e o impacto no chão ser muito maior, ferindo sua cabeça. Depois disso, ele ergueu a cadeira novamente e acordou o garoto, que estava semi-consciente.
- Sim senhor, Capitão Gonzalez, repita comigo agora.
O estudante, cheio de medo, repetiu pausadamente.
- Sim senhor Capitão Gonzalez.
- Muito bem.
Gonzalez andou um pouco, de um lado para o outro da sala, olhou para o garoto que estava desmaiado e, voltou a sua vítima:
- Agora, você pode me dizer o que estes livros estavam fazendo em sua mochila e quem deu isso para você?
- Eu já disse que não sei como foram parar ai!
Um soco poderoso fez o estudante cair, e um chute em seu peito o fez perder o ar. Depois disso, o capitão colocou seu pé encima do peito dele:
- Cada vez que você mentir levará um chute igual aquele. Agora, me conte, onde você arranjou aqueles livros.
O menino, ofegante, tentou repetir mais uma vez, com o resto de suas forças:
- Eu... Não sei... Como os livros... Foram... Parar... Ali. 
O Capitão, irritado, deu chutes repetidas vezes no peito do garoto, que perdeu todo o ar e fraturou uma costela. O homem pegou um balde de água e tocou no garoto, fazendo-o acordar.
Depois, ele tirou uma faca longa, muito bem afiada, e pousou a em cima das mãos do estudante.  Levantou-a, acima de sua cabeça e a baixou com um movimento rápido. Ele começou a gritar de dor, mas logo parou, a dor em seu pulmão era, naquele momento, muito pior que o dedo que fora separado de sua mão.
-Agora, você pode me responder, quem lhe deu esses livros? Gritou Capitão Gonzalez
A voz do garoto era só um sussurro, mas o capitão sabia muito bem o que ele estava tentado dizer.
Suspirando, ele foi até uma mesa, um pouco afastada das cadeiras e pegou um revolver. Calmamente, colocou uma bala na arma e voltou até onde estava. Depois disso, apontou a arma para o garoto.
“Ouço vozes e um estouro ao fundo, talvez Jonas não tenha conseguido. Estou imerso aqui, em meus pensamentos, com medo da hora em que chegar minha vez. Não sei se vou resistir”.
Ele pegou o corpo de Jonas e tirou da cadeira, levou-o até uma parte afastada do porão e o deixou ali, aquele coitado não merecia um enterro descente.
Depois disso, foi até o outro estudante, que estava desacordado, e retirou a venda. Então, foi até a pia, colocou um pouco de água em um velho copo e logo depois, jogou na cara do jovem. Ele foi acordando lentamente, seus olhos pesavam e exibiam uma expressão de cansaço.
- Meu nome é Capitão Gonzalez, e o senhor foi detido por porte de material proibido, a partir de agora você deverá responder todas as minhas perguntas. Entendeu?
Ele olhou bem para a cara do capitão, e respondeu:
- Sim senhor, Capitão Gonzalez.
- Muito bem então, agora, vamos começar. Você e seu amigo foram encontrados com material suspeito, quem lhes deu esses livros.
- Eu não sei senhor, eu não estava junto na hora.
O homem tirou seu casaco, se preparou e deu um poderoso murro na cara do estudante, que caiu no chão imediatamente.
“A dor que senti agora foi muito intensa, tenho certeza que quebrei o nariz e o impacto ao cair no chão me fez quase perder a consciência. Tenho medo do que pode acontecer a partir de agora”.
- Não minta para mim garoto, o outro tentou, e não ficou muito bem.
- Eu não menti senhor. Falou calmamente.
O Capitão levantou a cadeira, e olhou diretamente para o rosto do estudante:
- Qual o seu nome garoto?
- Felipe, senhor.
- Muito bem Felipe, você parece mais esperto que o outro, então me diga, como conseguiram os livros e com quem.
- Não sei onde Jonas conseguiu, mas ele queria levar para outra pessoa.
Ele tirou uma faca do bolso, segurou-a com as duas mãos, e cravou diretamente na coxa direita de Felipe, que gritou imediatamente. Começou a mover a faca de cima para baixo, de um lado para o outro, rasgando a carne, e ensopando a calça com sangue.
- Talvez isso faça você se lembrar de alguns nomes.
“A dor e muito forte, estou me segurando para não gritar imediatamente, não consigo pensar direito”.
Gonzalez sabia em que lugar podia acertar com a faca sem fazer a pessoa morrer, apenas para fazê-la falar. E no final, quase todos falavam. Ele ergueu sua faca novamente, e cravou-a na altura da barriga, um pouco ao lado do estomago.
Mais uma vez, Felipe gritou. Ele chorava de dor, rezando desesperadamente para que ela passasse. Capitão Gonzalez olhava para tudo aquilo com um ar cruel, ele controlava os interrogatórios por que era o melhor, e talvez sentisse prazer em matar.
“Quero morrer, esta dor está insuportável, espero que ele me mate logo”.
- Lembrou se de algo?
- Me... Mate... Sussurrava ele
- Não se preocupe, eu vou te matar, a diferença via ser o tempo que vai levar.
“Talvez seja hora de desistir, talvez ele me de uma morte rápida se eu falar”.
- Tudo... Bem...
- Você vai falar?
- Sim... Chegue mais perto...
O Capitão quase encostou seu ouvido na boca de Felipe, que sussurrou tudo o que sabia. Ele não era tão forte quanto Jonas, e se arrependia de sua escolha a cada nova palavra que dizia.
Gonzáles saiu de perto e foi de novo até a mesa, retirou seu revolver do cinto e colocou mais uma bala. Depois, voltou até onde Felipe estava e deu apenas um tiro. Direto na cabeça.
“Queria pedir desculpas a todos meus amigos, pois não fui tão forte nem tão corajoso quanto Jonas, e agora, nas portas da morte, me arrependo do que fiz, mas para mim, a escuridão parece reconfortante”.

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