O medo da morte o seduzia, e o prazer i a ira momentânea eram as únicas emoções que ele era capaz de sentir. Isso o fazia transar com mais mulheres, cometer atos perigosos. Não precisava de amigos, não conseguia ficar na rotina e não se arrependia nada do que fazia, pelo menos não até aquela noite.
David estava disputando rachas com seu carro, quando ultrapassou o sinal vermelho e um caminhão se chocou contra ele e despedaçou o carro inteiro, prensando-o contra um muro.
Ficou um mês em coma, e quando acordou, sentiu que alguma coisa estava diferente. Ainda não precisava de relações afetivas, mas não se sentia excitado com o medo da morte e não tinha mais vontade de transgredir a lei.
Agora, estava na frente do Doutor Roberto, um neurologista que acabara de se formar e inaugurar sua clínica. Junto com seu amigo Guilherme, psicólogo de um famoso hospital de São Paulo, descobriu o problema de David.
- Bem. Falando com cautela. Você não pareceu surpreso quando falei que você tinha um distúrbio.
- Não era novidade para mim, eu acabei descobrindo isso bem cedo em minha vida. Falou ele, se lembrando de dezoito anos antes, quando, ainda jovem, ouviu seu pai falando com o médico da família e depois, espancando ele até fazê-lo prometer não fazer mal a ninguém. Não eram boas lembranças.
O médico parou novamente, tentando adivinhar que pensamentos se passavam por trás daqueles olhos frios.
- O acidente com seu carro... Ele fez com que a sua cabeça batesse forte contra a direção. Apontou para a que cicatriz estava quase desaparecendo, mais ou menos nas têmporas. Ele causou danos no seu cérebro.
Ele havia ouvido falar de alguma coisa assim, um homem nos estados unidos voltou ao normal depois de dar um tiro em sua própria cabeça, lobotomizando o cérebro, não achava que alguma coisa assim tivesse acontecido com ele, mas talvez algo parecido.
Depois de sair da clinica, começou a andar pela cidade, pensando no que fazer, estava completamente sozinho, sem chão, nada o satisfazia, nada o fazia querer viver.
Mas o mundo é um lugar cinzento, com as paredes manchadas de sangue, o sangue de inocentes. E David logo descobriu isso.
Ao passar por um beco, ele ouviu uns gritos de mulher. Entrou correndo pela escuridão e foi ver o que era. Não se importava realmente se ela estava bem ou mal, mas queria deixar de pensar em assuntos inúteis.
O que viu o fez quase sentir temor. Aquela linda mulher teve os braços arrancados, os dedos os pés cortados e havia uma faca enterrada em sua barriga, tinha tanto sangue no chão que David já estava molhando os pés. Mas não se importava. Estava interessado, queria descobrir quem havia feito aquilo com o corpo.
Primeiro, deu uma boa olhada nele, a moça estava estranhamente com a face em que morrera, mas seu rosto não apresentava terror, e sim felicidade, parecia feliz com alguma coisa que havia acontecido recentemente.
Olhou para os lados, havia apenas uma saída, e ele sabia que ninguém passara por ele antes da mulher gritar. Do outro lado, o muro era alto demais, e, mesmo que ele soubesse pular muito bem muros, David já teria chegado antes que conseguisse subir.
Subitamente, ele olhou para cima, um pouco acima da escada de incêndio, que começava no segundo andar. Lembrou se do tempo que morou com seu tio, que compartilhava do seu mesmo mal.
- David, venha aqui garoto. Falou João
O garoto foi até o beco em que o tio estava, esperando que ele brigasse por ter batido no colega, que ameaçara contar a diretora que ele estava matando os pássaros da região.
Quando chegou perto, João apontou para cima.
- Aqui meu amigo, é o melhor jeito de escapar de algum lugar quando se comete m delito que não pode ser visto, haverá vezes em que não poderá pular o muro, por isso lembre-se: muitas pessoas olham primeiro de volta a rua, e quase nunca para lugar certo.
David olhou bem para aquela escada de incêndio, e nunca se esqueceu aquela dica de seu tio.
Ele agarrou a escada e a puxou para baixo, subindo vagarosamente. Olhando cada degrau, esperando encontrar qualquer coisa que o indicasse quem foi o assassino, mas havia apenas pequenas manchas de sangue.
‘ Está molhado, ele passou por aqui há pouco tempo, talvez um pouco antes de eu ter olhado para cima” Pensou ele.
Subiu até o telhado e pensou em que direção o assassino poderia ter ido. O telhado era inclinado, assim ele não poderia ter seguido em frente. Olhou para os telhados ao redor e pensou.
Havia um telhado plano a sua esquerda, por onde o assassino poderia ter escolhido passar. Decidiu ir por ali, ver o que mais poderia encontrar mais uma pista.
Tomou distancia e pulou. Ele pode chegar sem problemas no outro telhado e começou a olhar ao redor, até a rua.
Seu olhar parou até uma igreja que tinha a sua frente, que mesmo àquela hora da madrugada, estava com as portas abertas.
Voltou a sua casa para pensar no assunto, não poderia chegar à igreja àquela hora, provavelmente o assassino estava armado e não seria problema ele matar mais uma pessoa.
No outro dia, passou pelo mesmo beco ao mesmo horário, não havia ninguém, apenas um gato que ronronava mansamente. Decidiu esperar em um lugar mais estratégico, a igreja que vira na noite anterior. Entrou nela, sentou em um dos bancos da frente e fingiu rezar.
Uma mulher que estava a frente dele parecia impaciente, se movimentando o tempo todo. Ela era muito bonita e vestia roupas finas, o que fez David se perguntar o porquê dela agir assim.
Quando o padre chegou, ela foi correndo ao encontro dele, e os dois começaram a conversar. Não parecia uma conversa de um padre e uma crente, e sim de dois amantes que ficaram muito tempo sem se encontrar.
Ele não ouviu muito da conversa, pois estava longe, mas conseguiu perceber muito bem quando os dois saíram daquele recinto. Esperou um pouco e foi até a porta, não colocou a cabeça para fora para ver, mas tentou ouvir o que estava acontecendo.
Eliminando o barulho dos carros, os ruídos dos animais lá fora e das poucas pessoas que passeavam no fim da tarde, começou a se concentrar n que realmente interessava, aqueles dois pecadores que se distanciavam da igreja. Pode identificar os passos da mulher pelo barulho do salto alto, que ia se distanciando cada vez mais.
O grito estridente não tardou a vir, um grito feminino, desesperado, que ecoou pela rua, um grito que, infelizmente, ninguém parou para ouvir, a não ser David.
“Achei minha presa, agora está na hora de caçá-la”
Um jovem David foi recebido por seu tio depois de cinco dias na prisão por dirigir embriagado, ele habilmente convenceu os policiais que seu sobrinho era inocente, conseguindo que o jovem fosse liberado uma semana mais cedo.
Ao sair da prisão, João parou seu sobrinho na calçada e começou a falar:
- Você sabe muito bem que não estamos presos aos defeitos da existência dos sentimentos pelos outros, diferente daquelas pessoas que você acabou de ver. Cada um deles pode ser manipulado, é só saber onde. Se uma pessoa for feia, elogie-a, mostre que ela é linda, se for burra, mostre como ela ode ser inteligente. Torne-se o espelho perfeito para concertar o defeito de todos.
Ele sabia como poderia pegar aquele padre assassino, mas precisaria de mais uma pessoa. Quando o padre voltou, David esperou mais cinco minutos, então fez o sinal da cruz e saiu da igreja.
Foi até o orelhão mais próximo, retirou o cartão do bolso e colocou no telefone. Iria ligar para uma velha amiga, e tentar convencê-la a fazer um favor em nome dos velhos tempos.
- Alo? Atendeu uma voz feminina.
- Oi meu amor. Falou David
- David? Seu desgraçado! Você saiu daqui de casa há dois anos e nunca mais voltou! E agora, vem ligar, como se nada tivesse acontecido.
- É que só agora eu descobri uma coisa que mudou minha vida. Que eu te amo. Falou ele, simulando carinho na voz.
Ela ficou quieta, ele nunca havia dito uma palavra de carinho para ela quando estavam juntos, então, só podia ser verdade.
- Meu amor, você pode se encontrar mais uma vez comigo? Para podermos conversar um pouco, talvez nos acertarmos.
Ela tentou manter a voz de brava, mas estava terrivelmente abalada pelas palavras de seu antigo amor, e mesmo estando agora casada, decidiu se encontrar mais uma vez com ele:
- Tudo bem, em que lugar podemos nos encontrar?
- Há uma igreja aqui perto, no bairro em que morávamos, podemos nos encontrar lá daqui a alguns minutos.
Ela pensou um pouco e respondeu:
- Pode ser, eu chego ai em meia hora.
Ele se despediu amorosamente dela e desligou o telefone. “Um já foi, agora só falta fazer minha nobre caça cair na isca.
Depois do telefonema, David voltou à igreja, para falar com o padre. Entrou na nave da igreja e logo achou o assassino, recolhendo as bíblias esquecidas nas cadeiras.
- Oi padre, eu preciso muito de sua ajuda! Falou David, quase chorando.
O padre olhou sério para ele, até que falou:
- O que houve meu filho.
- Minha mulher esta me traindo, eu tenho certeza!
- Como pode ter certeza, essa acusação é muito grave...
- Eu vi, com meus próprios olhos, quando voltava mais cedo do trabalho.
A expressão do padre por um segundo pareceu desejosa, antes de voltar a parecer amável como sempre.
- Você deseja que eu fale com ela? Talvez eu possa ajudar...
- Você poderia?
- Sim a chame e, por favor, saia, é bom que eu e ela conversemos a sós.
- Tudo bem.
David saiu dali, limpando as lágrimas, e foi até o seu apartamento, onde guardava uma arma de fogo escondida, se tivesse emergências.
Jennifer estava pegando o táxi. Mesmo que simulasse raiva, era quase impossível ficar com raiva de David, e ela sabia disso. Iria até a igreja falar com ele, acabar de vez com os mal entendidos e até recomeçar sua vida, nem que tivesse que se separar do marido.
Ela chegou naquela grande igreja antiga, pagou o táxi e entrou. Esperava encontrar seu amado, mas havia ali apenas um jovem padre, que acendia as velas do altar.
- Oi? Perguntou ela.
O padre se virou:
- Sim? Falou o padre sorrindo.
- Por acaso um homem de mais ou menos vinte anos passou por aqui? Ele disse que queria me encontrar.
O padre mudou de expressão:
- Sim ele está aqui perto, vou lhe mostrar o caminho minha querida.
O padre levou Jennifer até o beco, onde não desconfiou de nada, até que percebeu que David não estava lá.
Tentou fugir, mas tudo que conseguiu foi ter sido empurrada, enquanto o padre puxava uma longa adaga de sua manga. Primeiro, começou a cortar o rosto da garota, coisa que não costuma fazer com as outras, mas, naquela noite, queria algo especial.
Depois, com o pé, segurou a garota, enquanto retirava um machado de debaixo da lixeira. Não era possível que os policiais não tivessem olhado num lugar tão óbvio como aquele.
Tirou a calça que ela usava e rasgou sua blusa ferozmente. Ergueu o machadinho e se preparou para cortar a primeira perna, quando sentiu seu peito queimando, tudo estava ficando escuro, e já não conseguia pensar direito.
Colocou as mãos perto do coração e percebeu, havia levado um tiro. Talvez estivesse tão concentrado com aquela mulher que provavelmente não percebeu o estouro da arma.
Jennifer foi falar com David, que segurava uma pistola, concentrado no corpo do padre.
- O que aconteceu aqui David? O que era aquilo? Perguntou ela, desesperada.
- Saia daqui agora, não preciso mais de você.
- O que? Por que está falando isso?
David olhou para ela, e teve uma explosão momentânea:
- Sai daqui sua puta, não ouviu o que disse?
Ela olhou para ele assustada, mesmo quando estavam juntos, nunca tinha visto ele assim, e duvidava muito que ele voltaria a ser como era. Pegou sua calça e sua blusa e saiu dali, pretendia chamar a polícia imediatamente.
“João e David se se encontravam olhando para um corpo no chão. A mulher de João olhara os exames de David, e queria expulsa-lo de casa. Seu marido achava que seu sobrinho seria muito mais útil que ela, então a matou. Depois disso, abrira sua barriga e colocara um punhado de pedras dentro, fechando com uma linha de tricô.
-Quando um de nós decide matar, ele cria uma assinatura, e por isso ficaram famosas. Começou ele.
- Os outros matam em um momento de raiva, nós matamos por que nos faz sentir bem e por que nos faz sentir bem, e porque é necessário, então, faça isso ter sua cara. Faça que os outros saibam que foi você, mesmo que não saibam quem você é.”
Quando o padre acordou, estava amarrado a um poste, seus pés estavam enterrados na lenha e no carvão, e seu corpo havia sido banhado a gasolina.
- Por que você fez isso? Perguntou o padre para David, que estava na sua frente. Ele não parecia assustado, apenas queria saber o porquê daquilo.
- Você passou um pouco dos limites, não estava fazendo um bem a seus maridos matando as suas esposas infiéis.
- Como você descobriu isso?
David chegou bem perto daquele homem, que já não parecia tão santo, apenas extremamente frio e calculista.
- Por que somos iguais.
Então, deixou o isqueiro cair e foi embora. Mesmo estando em chamas, o padre não gritou nenhuma vez. David saiu dali com uma sensação parecida da qual sentia muito antes do acidente, e ficou feliz por isso. Havia achado um novo hobby.


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