quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Devaneios

Depois de se despedir dos colegas, John saiu da escola e pegou o ônibus de volta para casa. Ele havia ganhado uma importante bolsa de estudos, e isso fazia com que ele andasse oito quilômetros até a parada para poder pegar a condução até a escola, que era em outra cidade.
Todo dia era a mesma rotina. Acordava quatro horas da manha e se vestia, arrumava sua cama, esquentava o café e o leite. Ia até o banheiro, pegava as roupas sujas e levava até a máquina de lavar. Depois de tomar o café, escovava os dentes, lavava a louça e saia de casa, para pegar o ônibus às seis horas.
Na escola, sua mente vagava para vários lugares, deixando o corpo, conhecia novos mundos e voltava, apenas para olhar ao redor e perceber que o mundo continuava o mesmo.
Na hora do almoço, ele ficava sozinho no refeitório, comendo um lanche e bebericando seu refrigerante, esperando que o sinal tocasse, e ele voltasse as suas aulas. Os professores não entendiam como um garoto desligado, desleixado e que quase não falava ia tão bem às disciplinas que eles lecionavam. 
Depois do ultimo sinal acontecer e todos os alunos serem dispensados, ele voltava para dentro do ônibus, apagado, passando por todos, sem ser visto, ele não vivia, apenas existia.
Colocando seus fones de ouvido, ele se esquecia do mundo, e saia novamente de seu corpo, viajando para uma imensidão de aventuras, até que era despertado por algum colega do ônibus na hora de descer da parada e iniciar seu caminho para casa.
Dia após dia, nada mudava, nenhuma cena mudava naquele filme extremamente entediante em que era a vida dele. Nada mudava, até aquela noite.
Era uma quinta ou uma sexta, não fazia muita diferença na época, e John voltava para casa cansado, um pouco mais que o normal. Talvez fosse por que naquele dia ele se obrigara a prestar atenção nas aulas, renunciando aos seus maravilhosos devaneios.
Na esquina de casa, enquanto ele passava, não percebia que muita coisa tinha mudado, havia mais arvores na rua, prédios haviam virado casas e a noite havia se tornado dia. Mas no auge de sua rotina, ele nem mais pensava enquanto voltava para casa.
Ao chegar ao portão, colocou a mão nos bolsos e murmurou:
- Merda, esqueci minha chave.
Ele foi até o lado do portão e ficou frente a frente do muro, se preparando para pular. Com um pequeno impulso, ficou acima e depois caindo em direção a grama, batendo a cabeça levemente no chão.
O som dos latidos o assustou, e logo três cães o atacaram, de médio porte, não eram tão fortes mas em John, cada mordida doía. Em sua mente gritava para si mesmo “Cachorros? Eu não tenho cachorros!”
Ele olhou para dentro e finalmente percebeu que, o que era para ser o prédio em que morava, era uma velha casa, e o pânico tomou conta. Tentou se livrar dos cães, mas eles o imobilizaram fortemente e pareciam esperar alguma coisa.
Lentamente, um velho senhor saiu da porta dos fundos da casa e em sua mão, havia uma espingarda. Ele, com fraqueza, levantou-a e apontou-a para John:
- Você nunca mais vai invadir minha casa, seu moleque enxerido.
Ele gritou, gritou desesperadamente. Teria ficado nisso por um bom tempo, até que ouviu uma voz conhecida:
- O que aconteceu querido?
Era Alice, sua colega e vizinha.
Ele não entendeu nada, estava novamente na frente de seu apartamento deitado no asfalto, olhando para o céu. Levantando lentamente, ele olhou para colega, uma das poucas amigas que tinha, e respondeu, meio sem palavras:
- Eu tive um espasmo muscular enquanto pulava o muro.
Ela riu um pouco, e logo depois caiu na gargalhada:
- Você é mesmo incorrigível, devia praticar algum esporte.
Ele deu um sorriso meio amarelo e entrou no seu prédio, subindo dois lances de escada até o apartamento. Tudo estava normal novamente.
À noite, ele não conseguiu dormir, pensando em sua visão. Não era bem uma visão, por que ele tinha marcas de dentes em seus braços e sua cabeça doía levemente pela pancada na grama.
Ele tinha a estranha certeza que o lugar em que estava o prédio era o mesmo em que ele estivera antes, a casa. O mais estranho, era que o velho com a espingarda parecia que o conhecia.
A manha veio e ele estava ansioso para sair de casa. Não conseguiu dormir um minuto aquela noite e queria algo diferente para fazer. Sentia que no momento em que teve aquela visão, sua vida mudara completamente.
Depois de levantar, ele se vestiu e foi até a cozinha, pegou a carteira, que estava em cima da geladeira e a mochila, em cima da cadeira. Saiu de seu pequeno apartamento e desceu as escadas, foi até uma cafeteria perto de seu apartamento e decidiu comer bem.
Pediu um café grande e uma porção de pão de queijo, para comer no local. Sentou em uma mesa perto da janela e começou a olhar a paisagem, esperando seu pedido.
- O que faz aqui, não devia estar na escola? Perguntou uma voz conhecida.
Era Alice, sua vizinha e colega, que olhava para ele com uma expressão divertida.
- Um dia a mais, um dia a menos não faz diferença. Falou John rindo.
Ela puxou uma cadeira e sentou na frente dele.
- Você parece diferente... Comentou ela, meio sem jeito.
- Eu mudei o corte de cabelo.
- Viu? Estou falando disso, até ontem você não tinha senso de humor, acho que talvez bem personalidade.
John repentinamente se lembrou da visão, e no que ela mudara na sua vida. Ele ia tocar no assunto, quando soube de uma notícia arrasadora.
- Você soube? O dono do prédio vai ser processado.
Ele ergueu as sobrancelhas:
- O que houve?
- Parece que a alguns anos atrás, na época da construção, várias pessoas foram desalojadas e um pequeno bosque que tinha aqui perto foi derrubado.
Alice falava aquilo com um tom divertido, mas John estava desesperado por dentro, havia casa ali antes do prédio, então aquela visão dele poderia ser verdade. Ele pegou sua mochila e o copo de café e saiu correndo:
- Aonde você vai? Perguntou ela assustada.
- Acabei de me lembrar que tinha uma prova daqui a pouco, vou ter que pegar o ônibus e rezar para chegar antes que acabe a aula.
John odiava ter que mentir para sua amiga, mas ele precisava resolver aquilo o mais rápido possível. Precisava chegar a seu apartamento e...
Não havia mais apartamento, nem mais nada. Apenas escombros.
Ele caminhou mais um pouco e viu que alguns muros estavam intactos, no meio do terreno em que devia estar os prédios. As casas ainda estavam demolidas e as máquinas ainda estavam quentes.
Haviam duas escavadeiras, mas seus ocupantes não estavam ali. John olhou para seu relógio, que marcava 12h15min hora do almoço. Ele passou pelo meio delas e chegou na calçada. Viu um cão que olhava para o lugar que outrora fora sua casa, e viu o velho, o mesmo que tentara atirar nele, chorando loucamente na calçada.
De repente, não mais que de repente, sentiu um impacto fortíssimo, que começara na perna, mas se espalhara pelo corpo quando foi arremessado pela calçada por um carro. Ele estava de volta à realidade. E não estava bem.
Seu corpo todo doía, e ele sentia dificuldade de ficar acordado, ao fundo, ele ouvia as pessoas ao redor vindo, olhando, curiosas. Ouviu também gritando e percebeu que era Alice.
A chuva fina caia sobre seu rosto, desatordoando-o um pouco. Ele sentiu uma mão tocando em seu rosto e lá longe, uma voz falou:
- Vamos John, fique comigo, não durma, a ambulância já está vindo.
Depois, ouviu sirenes se aproximando. A ambulância? Não, policiais, falando com todos, perguntando sobre tudo, mas ninguém olhou para o corpo que jazia no chão.
Todo mundo se dispersou, indo para todas as direções. Um veículo grande e branco chegou, trazendo quatro pessoas nele. Eles pegaram-no e o jogaram na maca, sendo um pouco descuidados. Alice entrou junto no veiculo, e eles se dirigiram ao hospital.
A ambulância sacolejava um pouco, e as sirenes davam dor de cabeça a John, que tentava desesperadamente se manter acordado. Ele queria dormir, mas estava com um medo profundo de não acordar depois disso.
Ele estava de olhos abertos, quando viu um médico que estava perto dele falar:
- Vai ficar tudo bem, apenas descanse.
John, aliviado, fechou os olhos, e quando abriu, já não sentia nenhuma dor, ele nem estava mais na ambulância.
Era um carro grande talvez uma pick-up, na frente, havia um motorista chorando, ao seu lado uma garrafa de whisky quase vazia e vários papéis. Foi para o banco da frente, ao lado do motorista. Sentiu o cheiro de bebida em suas roupas e percebeu que pouco se preocupava com o transito em sua frente.
O motorista dobrou a rua, foi então que John viu. Ele viu a si próprio, andando em direção a seu próprio prédio, a passos lentos, como se estivesse em transe. Tentou puxar o braço dele, para que desviasse a direção dele, mas os braços do homem pareciam ser de pedra.
Na verdade, tudo parecia ser de pedra, ele não conseguia puxar o freio de mão, abrir as portas nem pegar nos papéis. Resumindo, não podia interferir. Foi quando viu um papel ao lado de cambio. Era de uma construtora, chamada Travel, tentou pega-lo, mas obviamente, não conseguiria nem fazer ele se mexer. Baixou a cabeça, e começou a ler o que estava escrito. Viu que era uma carta de demissão. Não dizia os motivos, mas citava indiscrição, corrupção e complô. John não sabia muito bem o que aquele papel queria dizer, mas não teria tempo para descobrir.
 Ele ouviu o baque, olhou para trás e, viu o próprio corpo sendo jogado longe. Fechou os olhos e se concentrou. Estava voltando ao seu corpo.
Quando abriu de novo os olhos, viu que estava em um grande quarto de hospital, com várias camas e alguns pacientes. Sua perna estava engessada, e seu braço todo enfaixado, no resto de seu corpo, havia pequenas feridas, talvez do seu impacto no chão.
Ao seu lado, havia um velho senhor, que dormia. Mesmo em seu sono profundo, o seu rosto era de tensão e preocupação. Pensou em chamá-lo, mas depois desistiu, não seria bom acordar um homem que ele nem conhecia.
Com o tempo, virou para o lado e voltou a dormir, mas não teve um sonho, e sim uma visão.
Estava em um apartamento escuro. Um bom apartamento. Era todo mobiliado, home theater, televisão, um jogo de sofás muito confortável, seria confortável, se não estivesse com um ar de morte.
John começou a andar, foi até os quartos, onde uma linda mulher repousava, e no outro, um bebe ria do estranho que entrava no seu recinto. John foi até o berço, o bebe o olhava, na verdade, o via, e não parecia assustado.
Ele saiu dali, percorreu o banheiro, a outra sala, onde havia uma grande mesa de jantar, com doze cadeiras e um lustre enorme acima. Ele bem olhou direito o cômodo, e foi até a cozinha, que era o único cômodo da casa em que a luz estava ligada.
Nele, havia um homem, na verdade, o mesmo homem que havia atropelado John, e ele estava com meia garrafa de uísque e um baseado no meio dos dedos. Estava com uma expressão vazia, provavelmente chapado com a maconha.
Foi quando dois homens de terno entraram na cozinha, esses usavam óculos escuros, que escondiam seus olhos. Sem falar nada, foram até a frente do homem, que parecia não enxergar nada.
Um deles ergueu a arma, e apontou direto para cabeça do drogado, e sem hesitar, atirou. Depois de se certificar que o homem estava morto, saíram daquele cômodo.  John os seguiu de perto, e quando eles chegaram à porta, um homem de terno falou para o outro.
- Há alguém aqui.
- Você sentiu também?
John sentiu um frio na espinha. Eles sabiam que ele estava ali.
- É um daqueles? Falou um, dando ênfase na palavra “Daqueles”
- Provavelmente, mas não é tão forte quanto os outros.
“Outros? Há outros?” se perguntou John, “E como assim eu não sou tão forte”
- Acorde!
Ele olhou para os lados, não eram aqueles homens que estavam falando.
- Acorde, vamos, acorde!
A voz não vinha de nenhum deles, mas sim do outro lado. John estava voltando.
Ele abriu os olhos e estava no quarto do hospital. O velho homem estava olhando fixamente para ele:
- Ainda bem que você acordou, os médicos estão vindo.
- Como você sabe...
- Shii... Falou ele, enquanto o médico entrava pela porta:
- Oi John, meu nome é Leonardo, e vou ser seu médico por enquanto.
- Por enquanto?
- Sim, seu estado grave está passando, então será transferido para um hospital publico.
O silencio imperou. John sabia o porquê daquilo, ele não tinha dinheiro, nem família, e nem muitos amigos que pudessem ajudar.
- Não. Falou o velho da cama ao lado.
- Não o que, senhor Klein? Falou o médico.
- Ele vai ficar o tempo que precisar nesse hospital, por minha conta.
Leonardo assentiu com a cabeça e fez umas anotações em um formulário, depois se despediu e saiu.
- Muito obrigado. Murmurou John
- De nada.
- Não que eu esteja reclamando, mas por que você fez isso por mim?
- Nós temos muito que conversar, sobre você, e o que pode fazer.
O silencio imperou por alguns segundos, John estava se perguntando como o velho sabia o que tinha acontecido com ele e o que ele conseguia enxergar.
- O que é que você sabe sobre mim?
O velho, com dificuldade, se ajeitou na cama, até ficar sentado, respirou fundo e começou a falar:
- Filho, não é apenas sobre você, é sobre todos, sobre o mundo em geral.
- Como assim?
- Sabe, o mundo em que vivemos não é o único, há outros mundos, com outras pessoas, que não conseguiram atravessar a linha, no outro mundo, o bem e o mal são como entidades, eles trabalham separados, com seus seguidores e inimigos.
John olhava fixamente para o velho, era uma história difícil de acreditar, mas John não duvidava, era como se ele sempre soubesse.
- Esses dois mundos coexistem, bem aqui, na nossa realidade. Pessoas que estão às portas da morte, cães e gatos, e pessoas preparadas espiritualmente podem ver esse outro mundo que nos cerca.
- Mas o que isso tem a ver com o que está acontecendo comigo?
- Calma meu jovem, para você entender seu dom, você precisa saber o que há por trás dele.
- Como assim?
- Calma, me deixa continuar de onde eu estava.  Há pessoas, que ignoram o que vêem, e procuram esquecer essa ligação, e aos poucos, não conseguem ver mais, e há pessoas que, como eu, que quando começam a ver, nunca param.
Ele fez uma pausa, pegou um copo de água que estava ao lado de sua cama, e depois, continuou:
- Há espíritos, que podem ser influenciados para fazer o que certas pessoas desejam, como ver o futuro, mostrar o passado, e o principal, influenciar as outras pessoas.
- Influenciar outras pessoas?
- Sim, não é grande coisa, o espírito não tem poder para tanto, mas ele pode, aos poucos, sugar suas emoções e sua vontade de viver, o deixando, como posso dizer, vazio.
 Agora John estava começando a entender:
- Eu sou este tipo de pessoa?
O velho olhou para ele:
- Não, você é o tipo de pessoa que eles estão tentando parar.
John olhou para o homem, meio desnorteado. Por que eles estariam tentando pará-lo?
- Você tem um poder muito raro filho, você possui uma coisa chamada cognição, a habilidade de poder ver o que não está ao alcance das pessoas normais.
- Como você sabe de tudo isso?
- Para nós, que podemos ver os dois lados, fica fácil descobrir quem nasce com esse dom, há sinais claros disso. Você jovem, é ainda mais especial, pois alem de ver o presente, o futuro e o passado também estão ao seu alcance.
- Mas como posso usar isso ao meu favor?
- Isso meu jovem, você terá que descobrir. Agora, deixe-me dormir um pouco, nesta idade eu não posso ficar me exaltando.
O homem virou para o lado e dormiu, deixando John sozinho com seus pensamentos. O que faria a partir de agora? O que o futuro reservava para ele? Com essas perguntas ele adormeceu.
E quando adormeceu, sonhou. E quando sonhou, ele viu.
Mas o que ele viu foi diferente de tudo, é como se ele se transportasse repetidamente, vendo diferentes cenas, tendo que se concentrar para não se perder. Um médico daquele hospital recebendo um envelope de dois homens engravatados... Três carros negros parando em frente a uma casa muito bonita e luxuosa... Uma garota ajoelhada pedindo clemência enquanto dois policiais riam de sua cara... Em uma cama de hospital, ele mesmo levava tiros à queima roupa.
Aquilo tudo foi muito estranho e alucinado, mas no final, John sabia o que tinha que fazer.
* * *
Eram oito horas da manha quando senhor Klein acordou, havia poucas horas que havia falado com seu amigo, mas no seu coração, sabia que alguma coisa havia mudado. Ao olhar para o lado, viu que a cama dele estava vazia, exceto por um bilhete:
“Você me ajudou a encontrara um caminho, e agora está na hora de segui-lo.
Muito Obrigado.”
Ele sorriu e, finalmente, aceitou o destino que estava tanto evitando, apenas esperando aquele momento. Agora, ele poderia morrer em paz.

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