Ainda me lembro quando dividia o apartamento com Lucas, meu melhor amigo e colega de faculdade. Também me lembro quando começou sua péssima obsessão por desmascarar falsários que se diziam magos.
Não me entenda mal, acho que é muito bom ter alguém que mostre que nem tudo que se vê por ai é magia de verdade, mas Lucas era muito inteligente e podia descobrir hobbys bem melhores do que este.
Era um dia de verão quando estávamos passando pela praça, na frente do mercado público, e vimos um pequeno grupo de pessoas ao redor de um homem:
- Venham, venham, hoje vou lhes mostrar uma coisa inacreditável, a verdadeira magia!
Essas palavras atiçaram a curiosidade de meu amigo, que deixou de lado imediatamente as compras de livros que pretendia fazer para ver aquele show.
Ele entrou na multidão e eu, meio contrariado, fui junto. No meio dela havia um homem com aspecto de vendedor, tentando a todo custo nos convencer de que o que ele fazia era verdade, não apenas um truque.
Na frente dele, havia uma mesa, e em cima dela, um pote de sorvete limpo e vazio, sem tampa. Ele ergueu o pote com as mãos e disse:
- Todos que quiserem que eu lhes mostre meu poder, por favor, coloquem uma moeda no pote.
Um a um, todos foram pegando o pote e colocando uns trocados, inclusive Lucas, que parecia estar muito excitado com aquilo tudo.
- Hey Lucas, vamos daqui a pouco as lojas fecham!
- Não interrompa Filipe, eu quero ver o truque.
Naquela época, eu me assustei a ver aquela expressão que hoje estou tão acostumado, a frieza em seus olhos, a face determinada e séria, muito diferente do que eu costumava ver no dia a dia.
O Mago pegou uma fita adesiva e selou o pote, com todas as moedas dentro, e falou:
- Vocês estão dispostos a dar esse dinheiro se eu realizar o meu poderoso feitiço?
Ouvi uns murmúrios, a maioria, descrente, estava concordando. Ele, percebendo a resposta, tirou um grande anel cinza do bolso e colocou no dedo médio.
Pousou a mão no pote, e dentro dele, dava para ouvir o barulho das moedas se movendo. O homem levantou a mão a alguns centímetros do pote e começou a movê-la para o lado, e assustadoramente, o pote começou a se mover junto.
- Vejam o maravilhoso poder que eu possuo, e aplaudam!
E todos aplaudiram Lucas, que olhava fixamente para o pote. Quando a multidão começou a sair que Lucas deixou o seu transe, e começou a se dirigir para longe dali:
- O que achou do truque Lucas? Perguntei eu.
- Ei, era um anel bem grande não é mesmo? Falou ele, com o pensamento longe. E esse foi o único comentário sobre o truque que consegui dele naquele dia.
A noite, não consegui dormir, e percebi que meu amigo também não. Ele dormia no quarto ao lado, e ficou a noite inteira jogando sua maldita bolinha de tênis na parede. Era um passatempo bem comum seu quando estava deitado e sem conseguir dormir.
No outro dia, ele me acordou cedo, batendo a panela com uma colher insistentemente na porta do meu quarto.
Eu, muito mal humorado, me vesti lentamente e abri a porta do quarto, mostrando um Lucas alegre e com a expressão excitada.
- O que houve?
- Resolvi. Disse ele apenas, antes de pegar seu casaco e sair pela porta, comigo seguindo atrás.
Chegando lá na praça, o mesmo homem estava realizando o mesmo truque, para pessoas diferentes.
Ele entrou no meio da multidão bem na hora que o homem colocava a mão no pote de sorvete lacrado e fechava os olhos, fingindo se concentrar.
- Que tal tentar o truque sem o anel?
O homem olhou para ele, meio aturdido e respondeu sem muita convicção.
- Você sabe, todos os magos precisam de artefatos para concentrar o seu poder...
Lucas riu, e falou:
- Que tal tentar com o meu?
Ele jogou um anel para o homem, que instintivamente o pegou. A grande surpresa é que, quando ele foi largar, o anel ficou preso no que estava em seu dedo.
- Acho que você gosta de brincar com imas. Falou ele, rindo.
Depois, pegou o anel da mão do homem, que havia paralisado de medo. Lucas botou o anel em seu próprio dedo e tirou a fita do pote de sorvete. Colocando a mão em cima do pote, a tampa se moveu e algumas moedas acabaram grudadas no anel.
- É apenas um imã. Falou Lucas com convicção. Muito mais forte que os normais, mas apenas um imã.
Então se virou para o “mago” e falou:
- Teria sido muito melhor para você se tivesse dito apenas que era um truque.
Saindo da multidão ele se virou para mim e falou:
- Acho que gostei disso, talvez continue.
Nós estávamos dirigindo para uma livraria ali perto, quando uma linda mulher nos parou. Seus olhos azuis eram penetrantes, em contraste, com o cabelo vermelho vivo. Ela olhou de cima a baixo para Lucas e então sorriu:
- Estou montando um pequeno grupo, e nosso primeiro trabalho juntos era investigar esse homem. Falou ela.
- Desculpe chegar à frente.
- Não foi nada. Falou ela sorrindo. Depois, tirou um cartão da bolsa e entregou a ele:
- Se quiser fazer isso de novo, me ligue. Falou ela.
Depois dela se afastar na multidão e nós continuarmos nosso caminho, Lucas murmurou meio baixo, só para ele:
- Definitivamente, vou continuar nesse serviço.
E assim voltamos para casa, nos preparando pro próximo dia que estava por vir, e para meu amigo talvez, um novo quebra cabeça.


Cara, lembra do post sobre o Fim do Mundo, no Champ Vinyl, com as sugestões dos leitores?
ResponderExcluirnasceu!
http://champ-vinyl.blogspot.com/2009/10/apocalypse-now.html
Espero que goste!
Abração!