sábado, 17 de outubro de 2009

Quando a chuva começa

Quando eu estudava e ouvia o meu professor de física falando que, segundo as leis da física, se uma criatura de um planeta A fosse com uma nave circular para um planeta B, em outra dimensão, e seu planeta tivesse três dimensões, e o planeta B tivesse duas dimensões, as criaturas do planeta B veriam um ponto ou uma reta, mas nunca um círculo.
E eu começava a pensar, e se uma criatura de um planeta com quatro dimensões viesse aqui para terra, o que nós veríamos?  A resposta é: Nós não veríamos nada.
Acho que tudo começou há um dia ou dois, quando ouvimos um barulho estrondoso, tão grande que tivemos que tapar nossos ouvidos para não cairmos inconscientes.  Esse barulho foi ouvido em quase todas as partes do mundo, e as TVs não paravam de divulgar o que havia acontecido.
Mas aquilo foi só o início, depois veio a chuva. Uma chuva tão forte que todos tiveram que se abrigar, pois os que ficavam fora de algum abrigo eram derrubados no chão por causa do peso da chuva e os mais fracos acabavam desmaiando.
Naquele dia eu estava trabalhando em um escritório, vendo as papeladas que precisava assinar e fiquei em pânico, os desacordados por causa da chuva e do som, muitas deles já haviam sido atropelados pelos carros que corriam para voltar para suas casas, talvez ver suas mulheres ou salvar seus filhos.
 Naquele caso eu não precisava me preocupar, meus parentes estavam todos mortos e eu, com vinte e dois anos, ainda não pensava em me casar. Mas pensava em voltar para casa, pois eu não resistiria muitos dias em um escritório, onde não havia muito mais que uma jarra de café na sala de espera.
Estabeleci meu plano de ação rapidamente, eu desceria até a garagem, no subsolo, e faria ligação direta no melhor carro que tivesse ali, pois o meu não agüentaria aquela poderosa chuva que estava lá fora.
Quando cheguei lá embaixo, peguei o melhor carro dali, que eu só poderia comprar com anos de trabalho duro. Era de um dos meus chefes, que provavelmente estava escondido em baixo da escrivaninha de sua sala nos últimos andares do prédio.
Eu achava que nada poderia ficar pior que aquela maldita chuva, mas o terror mal havia começado. Carros que ainda estavam estacionados na rua começaram a ser jogados para cima, ou então eram arremessados a quilômetros de distancia de onde estavam. As pessoas que ficaram embaixo das marquises começaram a correr, e as que desmaiavam por causa do impacto da chuva estavam a estranhamente começando a se dissolver, primeiro a carne, depois os ossos e os órgãos, até não sobrar nada. E a partir daquele momento, os gritos de dor se tornaram cada vez mais freqüentes.
Naquele momento, acho que poucas pessoas se perguntavam de onde tinha vindo tudo isso, muitas apenas pensavam em sobreviver aquele massacre que estava acontecendo.
Eu decidi esperar um pouco naquele confortável carro, percebi que havia uma pequena TV na frente do passageiro e decidi ligá-la, para ver se alguma emissora ainda estava no ar.
Surpreendentemente todas estavam no ar, as jornalísticas estavam passando todo que estava acontecendo do lado de fora de sua janela, pois ninguém se arriscava a sair, principalmente depois de saber que algo estava matando a todos na rua. Os canais religiosos gritavam, dizendo que aquilo era o apocalipse e que todos nós devíamos nos ajoelhar e rezar para sermos salvos. Eu, como ateu, achava aquilo tudo um bando de besteira, e que se estávamos sofrendo tanto era por que merecíamos.
Reclinei a poltrona até ficar em uma posição confortável e mudei de canal para um desses de entretenimento, que só passava aqueles enlatados americanos.
Eu esperava sobreviver e chegar em casa, mas não era impulsivo, sabia que se eu saísse naquele momento eu morreria, como tantos outros, por isso eu tinha que esperar.
Não sei quanto tempo eu fiquei ali, acho que algumas horas, mas no final ouvi um homem gritando, correndo na direção do carro.
Abri a janela e olhei. Ele estava de terno e gravata, mas o terno estava rasgado e em suas mãos havia partes em que já aparecia a carne.
Eu podia ser manipulador, interesseiro, mas não era cruel, por isso, abri a porta do carro, pretendendo o levar para um hospital que ainda funcionasse. Ele teria sobrevivido, mas a centímetros de distancia de entrar, alguma coisa o puxou para fora o levando da garagem para rua.
Fechei a porta do carro rapidamente e acelerei, precisava sai dali. Aquelas coisas tinham começado a adentrar os prédios, e se elas tinham olhos, tinham me visto. Vi-me correndo com o carro o máximo que podia, tentando desviar dos corpos das ruas e daquilo que empurrava os carros para longe e dissolvia as pessoas. Com o tempo, você mesmo não vendo aquelas coisas, podia sentir sua presença, e talvez, com um pouco de concentração, ouvi-los.
Eu olhava para os lados de tempos em tempos, para ver se havia algum sobrevivente que precisava ser salvo, mas tudo que via era pilhas de corpos se dissolvendo e prédios sendo destruídos.
Foi quando a encontrei. Estava desmaiada perto dos escombros de um prédio que desmoronara há pouco tempo, não estava se dissolvendo como os outros e provavelmente ainda estava respirando.
Então sai do carro para pegar ela antes que alguma coisa me atingisse, estava com muito medo, pois não sabia o que de novo poderia surgir daquilo que estava perseguindo todos nós. Em menos de quatro horas nossa cidade, e mais várias outras cidades do mundo já haviam virado cidades pós-apocalípticas, que tanto vemos nos filmes de terror e ficção.
Eu peguei-a no colo e botei dentro do carro, e quando fechei a porta do lado dela, senti pela primeira vez o gás. Ele era quase incolor, mas quando chegava perto, nós sentíamos muito bem. Era espesso, e fazia nossas energias irem embora, junto com o impacto daquela chuva desgraçada fez-me quase desmaiar. Lutei muito para chegar à frente do carro e fechar a porta e os vidros, mas já não adiantava mais. Ele se impregnou no carro o suficiente para nos fazer entorpecer.
Acelerei o máximo que podia, esperando chegar a qualquer lugar que tenha alguém, mas minha mente já estava cansada demais, e só consegui pensar no hospital, onde provavelmente teria gente.
Quando cheguei à rua que dava para o hospital, vi que não havia ninguém e estava tudo trancado dentro, tomado pelo desespero e pelo cansaço, minhas mãos largaram o volante e meu cérebro se desligou.
Depois veio a dor.
Não sei o que aconteceu e quanto tempo dormi, mas quando acordei estava em uma maca, dentro do hospital em que tentava chegar. Estava com muitos ferimentos, mas a maioria deles estava agora com ataduras e ela estava do meu lado, e era linda.
Agora, ela dorme tranquilamente em uma poltrona, enquanto eu visto outras roupas e dou uma olhada no hospital. Sinto que as criaturas estão chegando perto, e eu terei que tirar agente daqui rápido.
Não acredito, mas se Deus existir, que Ele me ajude.

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